Você sente aquela queimação no estômago, especialmente depois das refeições. A dor vai e volta, e aos poucos passa a fazer parte da rotina. Fique tranquilo, a gastrite é uma condição comum, tem tratamento eficaz e, com o acompanhamento certo, é possível recuperar o bem-estar digestivo.
Neste artigo, você vai entender o que é essa inflamação, quais são seus tipos, o que provoca o problema, como o diagnóstico é feito e quais tratamentos trazem resultado.
O que é gastrite?
A gastrite é a inflamação da mucosa gástrica, que é o revestimento interno do estômago. Essa camada protege a parede do órgão contra a ação do ácido. Quando ela sofre agressão, a proteção diminui e surgem os sintomas.
A inflamação pode ser aguda, quando aparece de forma súbita e dura pouco tempo, ou crônica, quando persiste por semanas, meses ou até anos sem tratamento adequado. Nos dois casos, a avaliação médica é importante para identificar a causa e evitar que o problema evolua.

Os 4 tipos de gastrite mais frequentes
Existem diversos tipos, mas quatro deles são os mais frequentes na prática clínica. Conhecer essas diferenças ajuda a entender por que o tratamento precisa ser individualizado.
- Gastrite aguda surge de forma repentina, geralmente associada a um fator específico como o uso de anti-inflamatórios, consumo excessivo de álcool ou uma infecção alimentar. Os sintomas costumam ser intensos, mas tendem a melhorar com o tratamento correto.
- Gastrite crônica se desenvolve de forma lenta e pode durar muito tempo. A causa mais frequente é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, que agride a mucosa do estômago de forma contínua. Quando não tratada, pode levar a alterações no tecido gástrico ao longo dos anos.
- Gastrite autoimune é menos comum e acontece quando o próprio sistema imunológico ataca as células do estômago. Esse tipo pode levar a deficiências nutricionais, especialmente de vitamina B12 e ferro, e exige acompanhamento de longo prazo.
- Gastrite erosiva se caracteriza pela presença de pequenas feridas na mucosa gástrica. Costuma estar relacionada ao uso prolongado de anti-inflamatórios e pode provocar sangramentos.

Principais causas da inflamação gástrica
A inflamação no estômago pode ter diversas origens, e muitas vezes mais de um fator contribui para o problema.
- Infecção por Helicobacter pylori: essa bactéria é a causa mais frequente de gastrite crônica no mundo. Estudos estimam que o H. pylori infecta cerca de 50% da população mundial.
- Uso de anti-inflamatórios: medicamentos como ibuprofeno, aspirina e diclofenaco agridem a mucosa gástrica, especialmente quando usados por períodos prolongados ou sem proteção adequada.
- Consumo excessivo de álcool: o álcool irrita diretamente o revestimento do estômago e reduz sua capacidade de proteção.
- Estresse físico grave: situações como internações prolongadas, cirurgias complexas ou queimaduras extensas podem provocar inflamação aguda no estômago.
- Refluxo biliar: em alguns casos, a bile que deveria seguir para o intestino retorna ao estômago e irrita sua mucosa. Condições como o refluxo gastroesofágico podem agravar esse quadro. Saiba mais em nosso artigo sobre o tema.
Sintomas mais comuns
Os sintomas variam conforme o tipo e a intensidade da inflamação. Algumas pessoas apresentam queixas intensas, enquanto outras convivem com sinais leves por muito tempo sem perceber.
As manifestações mais frequentes são dor ou queimação na parte superior do abdômen, que pode piorar ou melhorar com a alimentação. Náuseas, sensação de estômago cheio mesmo após refeições pequenas, perda de apetite e indigestão também fazem parte do quadro.
Nos casos mais graves, especialmente quando há erosão da mucosa, pode haver vômitos com sangue ou presença de fezes muito escuras, quase pretas. Esses sinais indicam sangramento no estômago e exigem atendimento médico imediato.
É importante saber que a forma crônica pode ser silenciosa por longos períodos. Por isso, manter consultas regulares e investigar qualquer desconforto persistente é uma forma de cuidar da saúde de forma preventiva.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa com uma avaliação clínica detalhada. O médico investiga os sintomas, os hábitos alimentares, o uso de medicamentos e o histórico de saúde do paciente.
O exame padrão para confirmar a inflamação é a endoscopia digestiva alta.
Nesse procedimento, um tubo fino com câmera na ponta é introduzido pela boca até o estômago, permitindo que o médico visualize diretamente a mucosa e identifique sinais de inflamação, erosão ou outras alterações.
Durante a endoscopia, é possível realizar biópsias, ou seja, coletar pequenas amostras do tecido para análise em laboratório. Esse passo é fundamental para confirmar a presença da bactéria H. pylori e avaliar se houve mudanças no tecido gástrico.
Para a detecção do H. pylori, existem também testes não invasivos. O teste respiratório da ureia apresenta sensibilidade de 96% a 100% e especificidade de 93% a 100%, sendo considerado uma das formas mais precisas de diagnóstico. O teste de antígeno fecal também é uma opção confiável, com 94% de sensibilidade e 97% de especificidade.

Tratamento da gastrite
O tratamento é sempre individualizado, pois depende da causa, do tipo de inflamação e da gravidade do quadro.
A bactéria Helicobacter pylori é o principal agente infeccioso por trás da gastrite crônica, e a erradicação completa da infecção é o objetivo central do tratamento nesses casos. O protocolo envolve a combinação de antibióticos com medicamentos que reduzem a acidez gástrica, por um período de 10 a 14 dias.
Até recentemente, o esquema padrão no Brasil era a terapia tríplice com amoxicilina, claritromicina e um inibidor da bomba de prótons (IBP)
Porém, o avanço da resistência bacteriana à claritromicina vinha comprometendo a eficácia desse protocolo. Por esse motivo, o V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, publicado em junho de 2026, atualizou as diretrizes de tratamento no país.
A principal mudança foi a adoção da terapia quádrupla com subcitrato de bismuto como esquema de primeira linha. O novo protocolo combina bismuto, metronidazol e tetraciclina, associados a IBP ou vonoprazana. O bismuto auxilia a superar a resistência a múltiplos antibióticos e melhora as taxas de erradicação.
A adesão ao esquema completo é fundamental. Interromper o tratamento antes do prazo pode comprometer a eliminação da bactéria e favorecer ainda mais a resistência. Após a conclusão, o médico solicita exames de controle para confirmar que a infecção foi erradicada.
Nos casos relacionados ao uso de anti-inflamatórios, a primeira medida é suspender ou substituir o medicamento, sempre com orientação médica. O médico pode indicar protetores gástricos para permitir a recuperação da mucosa.
Para a forma autoimune, o tratamento foca na reposição de vitamina B12 e ferro, além do acompanhamento endoscópico regular. Já na forma erosiva, o uso de inibidores da bomba de prótons ajuda a reduzir a acidez e favorece a cicatrização da mucosa.
Em todos os tipos, o acompanhamento médico é essencial para ajustar o tratamento e confirmar que a inflamação foi controlada.
Alimentação e cuidados: o que evitar?
A alimentação não é a causa da gastrite, mas influencia diretamente a intensidade dos sintomas e a velocidade de recuperação da mucosa. Adotar uma dieta adequada é parte essencial do tratamento.
É recomendado evitar bebidas alcoólicas, café em excesso, refrigerantes, alimentos muito condimentados, frituras e comidas muito ácidas. Comer em horários regulares e em porções menores ao longo do dia ajuda a controlar a produção de ácido gástrico.
Além de retirar o que agrava, vale priorizar alimentos com perfil anti-inflamatório. Fontes de ômega-3, como peixes de água fria e sementes de linhaça, vegetais verde-escuros, frutas vermelhas e grãos integrais fornecem antioxidantes e polifenóis que auxiliam na modulação da resposta inflamatória do organismo.
Esse cuidado é especialmente relevante na gastrite crônica, onde a inflamação persiste por tempo prolongado.
A mastigação também merece atenção especial. Mastigar bem os alimentos reduz o trabalho mecânico do estômago, facilita a ação das enzimas digestivas e diminui a distensão gástrica. Comer devagar permite que o cérebro registre os sinais de saciedade, evitando excessos que sobrecarregam o processo digestivo. Evitar deitar logo após as refeições completa esse conjunto de cuidados.
Quando há dúvidas sobre dor abdominal e desconforto digestivo, vale descartar outras condições que podem causar sintomas parecidos, como pedra na vesícula.
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Fitoterápicos e chás que auxiliam no cuidado da gastrite
Além do tratamento convencional, alguns fitoterápicos e chás vêm sendo estudados por suas propriedades gastroprotetoras e anti-inflamatórias. É importante reforçar que essas opções funcionam como complemento ao tratamento médico, e nunca como substituição.
O zinco carnosina é um composto com ação citoprotetora direta sobre a mucosa gástrica. Ele tem afinidade especial pelo tecido inflamado, onde libera zinco localmente e auxilia na reparação das lesões, além de aliviar sintomas dispépticos.
O gingerol, composto ativo do gengibre, apresenta ação anti-inflamatória e efeito direto contra o H. pylori. Pesquisas demonstraram que o 6-gingerol e seus derivados reduzem a inflamação na mucosa gástrica induzida pela bactéria e melhoram a secreção de hormônios digestivos.
O barbatimão (Stryphnodendron adstringens) é uma planta medicinal brasileira com propriedades antiulcerogênicas. Suas proantocianidinas exercem efeito cicatrizante e protetor sobre a mucosa do estômago.
Entre os chás, a camomila se destaca pela ação gastroprotetora e antioxidante. A apigenina, um de seus compostos bioativos, atua na redução da inflamação do tecido gástrico.
A espinheira santa (Monteverdia ilicifolia) tem uso tradicional consolidado no Brasil para problemas gastrointestinais. Estudos confirmam suas propriedades protetoras, atribuídas a compostos fenólicos e polissacarídeos presentes nas folhas.
O chá de capim santo (Cymbopogon citratus) apresenta efeito gastroprotetor expressivo contra lesões gástricas. Já o boldo (Peumus boldus) contém boldina, um alcaloide com ação antioxidante e anti-inflamatória, além de atividade contra o H. pylori.
A escolha e a dosagem de qualquer fitoterápico ou chá devem ser orientadas pelo médico, levando em conta o quadro clínico e possíveis interações com os medicamentos em uso.

Quando procurar um gastrocirurgião?
Procure um médico se os sintomas persistirem por mais de duas semanas, mesmo com cuidados na alimentação. A avaliação é ainda mais importante quando há dor abdominal intensa, vômitos frequentes, perda de peso sem explicação ou sinais de sangramento, como fezes escurecidas.
Pessoas que fazem uso contínuo de anti-inflamatórios e apresentam desconforto gástrico também devem buscar orientação. A inflamação crônica no estômago, quando não tratada, pode evoluir para complicações como úlceras ou alterações na mucosa que exigem acompanhamento de longo prazo.
A síndrome do intestino irritável também pode causar sintomas digestivos semelhantes, e um especialista é a melhor pessoa para diferenciar as condições.
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Se a gastrite tem atrapalhado o seu dia a dia, saiba que existe um caminho claro para o tratamento. Cada caso tem suas particularidades, e a avaliação profissional é o primeiro passo para entender o que está acontecendo e recuperar o conforto.
O Dr. Fernando Bray é gastrocirurgião e coloproctologista, com consultório no Jardim Paulista, em São Paulo. Com uma abordagem acolhedora e técnicas atualizadas, ele oferece a cada paciente uma investigação cuidadosa e um plano de tratamento personalizado.
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Conclusão
A gastrite é uma condição que atinge muitas pessoas, mas nem sempre recebe a atenção que merece. Quando os sintomas são ignorados ou tratados apenas com automedicação, a inflamação pode avançar e trazer complicações que poderiam ser evitadas.
Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, a recuperação é possível e a qualidade de vida melhora de forma significativa. O passo mais importante é não normalizar o desconforto e buscar orientação profissional.
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FAQ: perguntas frequentes sobre gastrite
A condição tem cura?
Sim, na maioria dos casos a gastrite pode ser curada quando a causa é identificada e tratada corretamente. Quando o problema está ligado ao H. pylori, a cura acontece após a erradicação da bactéria. Na forma autoimune, o tratamento é de controle e acompanhamento.
Qual a diferença entre gastrite e úlcera?
A gastrite é uma inflamação na mucosa do estômago, enquanto a úlcera é uma ferida mais profunda nessa mesma mucosa. A inflamação pode evoluir para úlcera quando não tratada, mas são condições distintas.
Estresse causa essa inflamação?
O estresse emocional do dia a dia pode agravar os sintomas, mas raramente é a causa isolada do problema. Situações de estresse físico grave, como cirurgias ou internações prolongadas, podem provocar uma forma aguda da inflamação.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
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