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O que é GIST e como esse tumor é diagnosticado e tratado

Doenças do Estômago e Esôfago3 de set. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
O que é GIST e como esse tumor é diagnosticado e tratado

O GIST, sigla para tumor estromal gastrointestinal, é o tipo mais comum de tumor mesenquimal do aparelho digestivo. Apesar de representar menos de 1% de todas as neoplasias gastrointestinais, tem características que o diferenciam de qualquer outro tumor do trato digestivo.

Em boa parte dos casos, o diagnóstico acontece de forma inesperada, durante uma colonoscopia ou cirurgia realizada por outro motivo. Essa descoberta ao acaso costuma gerar muitas dúvidas, e entender como a doença se comporta e quais tratamentos existem ajuda a encarar o caminho com mais segurança.

O que é GIST e como esse tumor é diagnosticado e tratado

O que é GIST?

O tumor estromal gastrointestinal se origina nas células intersticiais de Cajal, estruturas que funcionam como um "marca-passo" do intestino. Essas células coordenam os movimentos involuntários que empurram o alimento ao longo do tubo digestivo, e é justamente nelas que surge a alteração que dá origem ao tumor.

Diferente dos adenocarcinomas, que nascem na camada superficial da mucosa, os tumores estromais se desenvolvem nas camadas mais profundas da parede do órgão. Esse crescimento silencioso explica por que muitos casos passam despercebidos por anos.

Para entender melhor a diferença entre os tipos de tumor, veja mais no artigo sobre o que é um câncer.

Onde o tumor estromal gastrointestinal costuma aparecer?

A incidência global é estimada em 10 a 15 casos por milhão de habitantes ao ano, com distribuição praticamente igual entre homens e mulheres. A distribuição segue um padrão bem documentado na literatura.

O estômago concentra cerca de 55% a 60% dos casos. O intestino delgado vem em segundo lugar, com aproximadamente 30%. Já o intestino grosso e o reto respondem por 5% a 9% das ocorrências.

Embora menos frequentes, as lesões do intestino grosso merecem atenção especial, justamente por estarem na área de atuação do coloproctologista. Casos no esôfago, no peritônio ou no omento também são descritos, mas considerados raros.

Sintomas do GIST no trato digestivo

Uma parcela significativa dos pacientes não apresenta sintoma algum no momento do diagnóstico. Em muitos casos, a doença é descoberta durante exames de imagem ou procedimentos cirúrgicos realizados por outros motivos.

Quando existem, os sintomas dependem do tamanho e da localização. Os mais frequentes incluem:

  1. Dor ou desconforto abdominal persistente
  2. Sensação de empachamento ou saciedade precoce
  3. Sangramento digestivo, que pode se manifestar como sangue nas fezes ou anemia sem causa aparente
  4. Massa palpável no abdome, em tumores de maior volume

Tumores menores que 2 cm costumam ser assintomáticos. Lesões maiores podem comprimir estruturas vizinhas, causar obstrução intestinal ou, mais raramente, romper e provocar sangramento para a cavidade abdominal.

O que é GIST e como esse tumor é diagnosticado e tratado

Como o GIST é descoberto?

Há dois cenários principais. No primeiro, o paciente procura atendimento por queixas como dor abdominal ou sangramento, e a investigação leva ao diagnóstico. No segundo, o tumor é encontrado por acaso durante um exame de rotina ou uma cirurgia indicada por outro motivo.

A colonoscopia tem papel importante nesse segundo cenário. Durante o exame, o especialista pode identificar uma lesão submucosa arredondada, com mucosa íntegra por cima, e encaminhar para biópsia e investigação complementar.

Leia mais sobre como funciona esse exame no artigo dedicado à colonoscopia.

Exames de imagem como tomografia ou ressonância também revelam tumores que ainda não causaram sintomas, especialmente quando realizados para avaliar outras condições.

Quais exames confirmam o diagnóstico?

A confirmação passa por uma combinação de exames de imagem e análise do tecido. A tomografia computadorizada do abdome com contraste é o exame mais utilizado para avaliar tamanho, localização e possível disseminação da lesão.

A análise histopatológica do material retirado na biópsia ou cirurgia é decisiva. Na imunohistoquímica, a presença da proteína CD117, também chamada de c-KIT, confirma o diagnóstico em cerca de 95% dos casos. O marcador DOG1 complementa a avaliação e é especialmente útil nos casos CD117-negativos.

A contagem de mitoses e o índice de proliferação celular ajudam a classificar o risco de recorrência, orientando as decisões sobre tratamento após a cirurgia.

O que é GIST e como esse tumor é diagnosticado e tratado

Por que as mutações genéticas importam no tratamento?

Cerca de 80% dos tumores estromais gastrointestinais apresentam mutações no gene KIT, enquanto 5% a 10% possuem alterações no gene PDGFRA. Identificar essas mutações é fundamental porque o tipo de alteração genética define qual medicamento terá maior chance de funcionar.

Um exemplo prático: tumores com mutação PDGFRA D842V, que não respondiam ao tratamento convencional, passaram a ter taxas de resposta superiores a 90% com o avapritinibe, medicamento aprovado em 2020 justamente para esse perfil genético.

Os casos chamados de "tipo selvagem", sem mutação em KIT nem em PDGFRA, representam cerca de 10% a 15% do total e exigem abordagem individualizada.

Tratamento cirúrgico do GIST

A cirurgia é o principal tratamento para tumores localizados e representa a única opção com potencial curativo. O objetivo é a retirada completa da lesão com margens livres, preservando o máximo possível do órgão afetado.

Uma particularidade dos tumores estromais é que eles raramente se disseminam para os linfonodos. Isso permite cirurgias mais conservadoras, sem necessidade de retirada extensa de gânglios linfáticos. Em diversas situações, técnicas minimamente invasivas, como a laparoscopia, oferecem excelentes resultados com recuperação mais rápida.

Confira mais detalhes sobre esse tipo de abordagem no artigo sobre cirurgia minimamente invasiva.

Após a cirurgia, tumores classificados como de risco intermediário ou alto podem receber tratamento medicamentoso complementar, com o objetivo de reduzir a chance de recorrência.

Tratamento com medicamentos-alvo

Quando a lesão não pode ser completamente removida, ou quando há risco elevado de a doença retornar, os medicamentos-alvo entram em cena. O imatinibe revolucionou o cenário terapêutico no início dos anos 2000 e segue como primeira opção na maioria dos casos.

Em caso de progressão ou intolerância, a sequência terapêutica inclui sunitinibe, regorafenibe e ripretinibe. Este último demonstrou, em estudo de fase III, uma sobrevida livre de progressão de 6,3 meses contra 1 mês com placebo, em pacientes que já haviam recebido três ou mais medicamentos anteriores.

Novos medicamentos estão em fase avançada de pesquisa, com resultados promissores para pacientes que precisam de tratamento prolongado. Esses avanços continuam ampliando as opções terapêuticas disponíveis.

GIST no intestino grosso e no reto: quando procurar o Dr. Fernando Bray

Embora representem a minoria dos casos, as lesões localizadas no cólon e no reto exigem a avaliação de um especialista familiarizado com a anatomia dessa região. A abordagem cirúrgica no reto, em particular, requer planejamento cuidadoso para preservar a função esfincteriana e a qualidade de vida do paciente.

Em tumores retais pequenos, a ressecção local pode ser suficiente. Lesões maiores ou em posições próximas ao canal anal podem exigir uma cirurgia mais ampla. A decisão depende de fatores como tamanho, localização exata, resultado da análise genética e da avaliação multidisciplinar.

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Conclusão

O tumor estromal gastrointestinal é uma condição que ganhou opções de tratamento significativas nas últimas duas décadas. O diagnóstico precoce, a análise genética e a escolha individualizada do tratamento fazem diferença real nos resultados.

Se você recebeu esse diagnóstico ou teve um achado suspeito em exame, procurar um especialista com experiência em cirurgia do aparelho digestivo é o passo mais importante.

Continue explorando outros temas sobre saúde digestiva aqui no blog.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes sobre GIST

GIST é câncer?

Sim. Ele é classificado como uma neoplasia maligna, embora seu comportamento varie de acordo com o tamanho, a taxa de mitose e a localização. Tumores pequenos e com baixa atividade celular tendem a ter um curso mais favorável.

Todo GIST precisa de cirurgia?

Na maioria dos casos, sim. A cirurgia continua sendo o tratamento com maior potencial curativo para tumores localizados. Lesões muito pequenas e assintomáticas podem, em situações selecionadas, ser acompanhadas de forma rigorosa com exames periódicos.

O tumor estromal gastrointestinal tem cura?

Quando diagnosticado em fase inicial e completamente removido por cirurgia, as chances de controle a longo prazo são boas. Para tumores com risco elevado de recorrência, o uso de medicamento-alvo após a operação pode reduzir significativamente a chance de a doença retornar.

Qual médico trata esse tipo de tumor?

O tratamento envolve equipe multidisciplinar, incluindo gastrocirurgião, oncologista clínico e, em casos localizados no cólon ou reto, o coloproctologista. A decisão terapêutica ideal é tomada em conjunto por esses profissionais.

Referências

StatPearls. Gastrointestinal Stromal Tumors. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554541/

Søreide K et al. Global epidemiology of gastrointestinal stromal tumours: a systematic review of population-based cohort studies. Cancer Epidemiol. 2016. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6351301/

National Cancer Institute. Gastrointestinal Stromal Tumors Treatment (PDQ). https://www.cancer.gov/types/soft-tissue-sarcoma/hp/gist-treatment-pdq)Jones RL et al. Avapritinib in unresectable or metastatic PDGFRA D842V-mutant GIST: long-term efficacy from the NAVIGATOR trial. Eur J Cancer. 2021. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33465704/

Blay JY et al. Ripretinib in patients with advanced gastrointestinal stromal tumours (INVICTUS): a phase 3 trial. Lancet Oncol. 2020. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32511981/

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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