Cerca de 44% da população adulta do mundo está infectada pelo H. pylori, segundo levantamento publicado na revista Gastroenterology.
A maioria dessas pessoas não sente nada e desconhece que abriga a bactéria no estômago. O problema aparece quando a infecção avança em silêncio e provoca gastrite crônica, úlcera gástrica ou, nos casos mais graves, câncer de estômago.
Nos últimos dois anos, o tratamento dessa infecção mudou de forma expressiva. O esquema clássico com claritromicina perdeu espaço diante da resistência bacteriana, e tanto as diretrizes internacionais quanto o V Consenso Brasileiro redefiniram os protocolos de primeira linha.
Neste artigo, você vai entender como reconhecer os sintomas, como é feito o diagnóstico e qual o caminho mais atual para eliminar a bactéria.
O que é o H. pylori?
O Helicobacter pylori é uma bactéria em formato espiral que coloniza a camada de muco do estômago. Para sobreviver nesse ambiente ácido, ela produz uma enzima chamada urease, que neutraliza a acidez ao seu redor e permite que o micro-organismo se mantenha ativo por tempo indeterminado.
A infecção pode permanecer presente por décadas sem provocar sintoma algum. É essa característica silenciosa que exige atenção: enquanto a pessoa não percebe nada, a bactéria pode estar causando inflamação contínua na mucosa gástrica, com potencial de evolução para lesões mais sérias.
Na América Latina, a prevalência é ainda mais alta que a média mundial. Cerca de 69% dos adultos da região são portadores da bactéria, conforme revisão publicada na Cancer Epidemiology.

Como a infecção por Helicobacter pylori acontece
A transmissão ocorre principalmente por via oral-oral e fecal-oral, ou seja, pelo contato com saliva, água contaminada ou alimentos preparados sem condições de higiene adequadas.
Uma vez instalada, a bactéria não desaparece sozinha e permanece no estômago por tempo indeterminado, a menos que seja tratada com antibióticos.
Famílias que dividem o mesmo domicílio tendem a compartilhar a infecção. Crianças cujos pais são portadores apresentam risco significativamente maior de contrair o micro-organismo antes dos dez anos de idade.

Quais são os sintomas mais comuns?
A maioria das pessoas infectadas não apresenta nenhum sintoma. Quando os sinais aparecem, costumam estar ligados à inflamação da mucosa ou à formação de úlceras. Os mais frequentes incluem:
- Dor ou queimação na parte superior do abdômen, principalmente em jejum
- Sensação de estufamento e saciedade precoce após as refeições
- Náuseas recorrentes sem causa aparente
- Perda de apetite persistente
- Eructação frequente e desconforto gástrico
Vômitos com sangue, fezes escurecidas ou perda de peso sem explicação exigem avaliação médica imediata, pois podem indicar sangramento de úlcera ou outra complicação grave.
Complicações da infecção não tratada
Quando a bactéria não é erradicada, a inflamação crônica que ela provoca na mucosa gástrica pode progredir por diferentes caminhos. Entre as complicações documentadas estão:
- Gastrite crônica ativa, que altera o revestimento protetor do estômago
- Úlcera gástrica ou duodenal, com risco de sangramento digestivo
- Atrofia da mucosa e metaplasia intestinal, etapas que compõem a sequência de risco para câncer gástrico
- Linfoma MALT, um tipo raro de tumor do tecido linfático do estômago
A Organização Mundial da Saúde classifica o H. pylori como carcinógeno do grupo 1 para câncer de estômago, o que significa que há evidências suficientes do papel causal da bactéria no desenvolvimento desse tumor. Por isso, a erradicação não é apenas uma questão de alívio de sintomas, mas de prevenção oncológica.
Quem sente dor no estômago de forma recorrente, mesmo com exames aparentemente normais, deve considerar a investigação da bactéria. Saiba mais no artigo sobre dor no estômago com endoscopia normal.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico pode ser realizado por métodos invasivos e não invasivos. Entre os não invasivos, o teste respiratório com ureia marcada (carbono-13) é considerado o padrão-ouro para detectar infecção ativa. Outra opção é o teste de antígeno fecal, que identifica fragmentos do micro-organismo nas fezes.
Nos métodos invasivos, a endoscopia digestiva alta permite coletar fragmentos da mucosa gástrica para o teste da urease rápida e para análise histológica. A vantagem desse caminho é a visualização direta de eventuais lesões, como úlceras ou alterações pré-cancerosas.
Após o tratamento, a confirmação de erradicação é obrigatória. As diretrizes mais recentes recomendam aguardar pelo menos quatro semanas sem antibióticos e duas semanas sem inibidores de bomba de prótons antes de repetir o exame confirmatório.

Por que o esquema clássico perdeu eficácia?
Durante décadas, o tratamento de primeira linha no Brasil combinava amoxicilina, claritromicina e um inibidor de bomba de prótons por sete a 14 dias. Esse protocolo funcionou bem até que a resistência bacteriana comprometeu seus resultados de forma significativa.
Meta-análise publicada na revista Helicobacter, com mais de 47 mil amostras de 36 países, confirmou que a resistência global do H. pylori aos antibióticos segue em trajetória ascendente na última década.
A claritromicina é um dos casos mais preocupantes. Revisão sistemática com dados até 2021 demonstrou que a resistência global a esse antibiótico saltou de 24% para 32% entre os períodos de 2010-2017 e 2018-2021.
Nos Estados Unidos, a resistência à claritromicina já ultrapassa 31% e ao metronidazol chega a 42%. Frente a esses números, as diretrizes atuais contraindicam o uso empírico de claritromicina e levofloxacina sem teste de sensibilidade prévio.
Novo protocolo de tratamento do H. pylori
A diretriz clínica publicada pelo American College of Gastroenterology em setembro de 2024 trouxe mudanças relevantes na conduta terapêutica.
O novo esquema de primeira linha recomendado é a terapia quádrupla com bismuto por 14 dias, composta por inibidor de ácido gástrico, subsalicilato ou subcitrato de bismuto, tetraciclina e metronidazol. As taxas de erradicação com esse protocolo ficam entre 85% e 95%, bem acima dos 76% a 80% da terapia tripla clássica.
No Brasil, o V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, apresentado em novembro de 2025, alinhou as recomendações nacionais com essa tendência internacional.
O consenso brasileiro passou a oferecer três opções de primeira linha, todas com duração de 14 dias: terapia quádrupla com bismuto, terapia tripla otimizada com claritromicina e vonoprazana (quando a resistência local é baixa) e terapia dupla com amoxicilina em dose alta associada a inibidor de ácido potente.
Um ponto importante: cursos de 07 ou 10 dias foram abandonados. Todas as opções atuais utilizam 14 dias como duração padrão, já que esquemas mais curtos reduzem significativamente as chances de erradicação completa.

Vonoprazana e a mudança no esquema terapêutico
A vonoprazana é um bloqueador ácido competitivo de potássio (P-CAB) que funciona de maneira diferente dos inibidores de bomba de prótons convencionais.
Enquanto o omeprazol e seus derivados precisam de ativação ácida e sofrem influência de variações genéticas do paciente, a vonoprazana age de forma mais rápida, mais potente e independente do perfil genético.
Estudo multicêntrico publicado na revista Helicobacter comparou cursos de dez e 14 dias com vonoprazana associada à amoxicilina. O regime de 14 dias alcançou 95% de erradicação por protocolo e 88% por intenção de tratar, confirmando a superioridade do curso mais longo.
Meta-análises recentes também indicam que pacientes tratados com vonoprazana apresentam cerca de metade dos efeitos adversos em relação aos esquemas com inibidores de bomba de prótons convencionais, o que favorece a adesão ao tratamento completo.
No Brasil, a vonoprazana já está disponível, mas seu custo ainda limita o acesso para parte dos pacientes. Da mesma forma, o subcitrato de bismuto é encontrado apenas em farmácias de manipulação, o que representa uma barreira prática para a adoção da terapia quádrupla.

Compostos naturais como coadjuvantes no tratamento
Além dos antibióticos, alguns compostos naturais vêm sendo estudados como coadjuvantes no combate ao H. pylori. O zinco carnosina (polaprezinco) é um dos mais promissores.
Meta-análise publicada na Nutrients, com 396 pacientes de três ensaios clínicos, demonstrou que associar o zinco carnosina à terapia tripla elevou a taxa de erradicação de 67% para 80,4%, sem aumento de efeitos colaterais.
O composto age protegendo a mucosa gástrica durante o tratamento, reduzindo a inflamação provocada pela bactéria e favorecendo a recuperação do revestimento do estômago.
O gengibre também demonstra atividade contra a bactéria. Pesquisa publicada no Anticancer Research confirmou que o gingerol, composto ativo do gengibre, inibiu o crescimento de todas as 19 cepas de H. pylori testadas em laboratório, incluindo as mais virulentas
Em modelo animal, estudo publicado na Pharmaceutical Biology mostrou que o extrato padronizado de gengibre reduziu a carga bacteriana e diminuiu significativamente a inflamação da mucosa gástrica
Esses compostos não substituem o tratamento com antibióticos, mas podem ser considerados pelo médico como complemento à terapia convencional.
Investigação e tratamento do H. pylori com o Dr. Fernando Bray
Se você está com desconforto gástrico recorrente ou recebeu resultado positivo para a bactéria, o passo mais importante é buscar orientação com um especialista que conheça os protocolos atuais e acompanhe todo o processo até a confirmação de erradicação.
O Dr. Fernando Bray é gastrocirurgião e coloproctologista em Jardim Paulista, São Paulo. Realiza a investigação completa da infecção, incluindo endoscopia com biópsia e teste de urease, e orienta o tratamento com base nas diretrizes mais recentes.
Quando a primeira linha não é suficiente, avalia o perfil de resistência e indica esquemas de resgate individualizados.
Agende sua consulta para investigar H. pylori
Conclusão
Erradicar o H. pylori é uma das medidas mais eficazes para proteger o estômago de lesões graves, incluindo úlceras e câncer gástrico. Os protocolos mudaram: o tratamento de 14 dias com terapia quádrupla ou com medicamentos como a vonoprazana oferece taxas de cura superiores às do esquema anterior.
Se você convive com desconforto gástrico recorrente ou já recebeu diagnóstico de gastrite, vale investigar a presença da bactéria. Veja mais conteúdos sobre saúde digestiva no blog do Dr. Fernando Bray.
Perguntas frequentes sobre H. pylori
H. pylori tem cura?
Sim. Com o tratamento adequado, a erradicação é alcançada em 85% a 95% dos casos. Após a confirmação de que a bactéria foi eliminada, a reinfecção é incomum em adultos que mantêm boas condições de higiene.
Quem tem a bactéria pode comer normalmente?
Não existe uma dieta obrigatória. Durante o tratamento, é recomendável evitar álcool e alimentos que intensifiquem a irritação gástrica, como café em excesso, frituras e temperos muito picantes. Após a erradicação, a alimentação pode voltar ao normal.
É possível estar infectado e não ter sintomas?
Sim, e essa é a situação mais frequente. A maior parte dos portadores não apresenta queixas ao longo da vida. Ainda assim, a infecção pode estar causando inflamação silenciosa no estômago e, por isso, o rastreamento deve ser considerado quando há fatores de risco.
A automedicação pode resolver a infecção?
Não. Tomar antibióticos por conta própria, além de não garantir a cura, favorece a resistência bacteriana e dificulta tratamentos futuros. O diagnóstico correto por exame específico e a prescrição médica são indispensáveis.
Referências
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