
Doenças do Estômago e Esôfago
Você fez cirurgia de refluxo e não está bem? Entenda a reoperação
Fez cirurgia de refluxo e os sintomas voltaram? Saiba quando a reoperação é indicada, como é feita com cirurgia robótica e quais exames são necessários.

Você convive com refluxo há muito tempo e talvez já tenha ouvido falar no esôfago de Barrett. É natural sentir insegurança ao pesquisar sobre o tema, especialmente quando se depara com informações sobre risco de câncer.
Mas fique tranquilo, com acompanhamento médico adequado, essa condição pode ser monitorada e tratada de forma segura.
Neste artigo, você vai entender o que é essa condição, como ela se desenvolve, quais são os riscos reais e o que a medicina oferece para o tratamento e o acompanhamento da condição.
O esôfago de Barrett é uma alteração no revestimento interno do esôfago. Em condições normais, esse revestimento é formado por células do tipo escamoso.
Nessa condição, essas células são substituídas por células do tipo intestinal, um processo chamado metaplasia intestinal.
Essa transformação acontece como uma resposta do organismo à agressão crônica causada pelo ácido do estômago, que retorna repetidamente ao esôfago por conta do refluxo gastroesofágico.
Uma revisão publicada no JAMA aponta que o esôfago de Barrett afeta cerca de 1% da população adulta mundial e até 5% da população nos Estados Unidos.
A principal causa do esôfago de Barrett é o refluxo gastroesofágico crônico e não controlado. Quando o ácido do estômago entra em contato repetido com o tecido do esôfago ao longo de anos, o organismo promove a mudança celular como mecanismo de proteção.
O esôfago de Barrett em si não costuma provocar sintomas próprios. A maioria das pessoas descobre a condição durante uma endoscopia realizada para investigar queixas de refluxo.
Os sintomas mais comuns são aqueles relacionados ao refluxo gastroesofágico: azia frequente, sensação de queimação no peito, regurgitação ácida, dificuldade para engolir e dor no peito.
Algumas pessoas podem ter a condição sem apresentar nenhum sintoma, o que reforça a importância do acompanhamento regular quando existem fatores de risco.
É importante saber que a melhora dos sintomas de refluxo com medicação não significa que a condição desapareceu. O quadro exige monitoramento independente do controle da azia.
O refluxo gastroesofágico é o principal gatilho para o desenvolvimento do esôfago de Barrett. Quando o conteúdo ácido do estômago retorna ao esôfago com frequência, a mucosa sofre uma agressão contínua.
Com o tempo, o organismo substitui as células originais do esôfago por células mais resistentes ao ácido, semelhantes às do intestino. Essa adaptação, embora protetora no curto prazo, cria um tecido que tem potencial de sofrer alterações progressivas.
Por isso, pessoas com refluxo crônico e não controlado são as que apresentam maior risco. O controle adequado do refluxo com medicação e mudanças de hábitos é uma das medidas mais importantes para prevenir a progressão da condição.
O diagnóstico é feito por meio de endoscopia digestiva alta, um exame que permite visualizar diretamente o revestimento do esôfago.
Durante o procedimento, o médico identifica áreas com aspecto diferente e coleta pequenas amostras de tecido para análise microscópica.
A biópsia é essencial para confirmar a presença de metaplasia intestinal e verificar se há algum grau de displasia, que é uma alteração celular que pode indicar maior risco de progressão. O resultado da biópsia é o que define o grau de atenção e a frequência do acompanhamento.
Confira nosso conteúdo sobre exames endoscópicos e como se preparar.
Essa é a dúvida que mais preocupa os pacientes. A alteração é considerada pré-cancerosa, mas isso não significa que toda pessoa com o diagnóstico vai desenvolver câncer.
Os dados da literatura médica ajudam a colocar esse risco em perspectiva:
Quando o esôfago de Barrett não apresenta displasia, o risco anual de progressão para câncer esofágico é inferior a 0,3%. Nos casos de displasia de baixo grau, esse risco sobe para cerca de 0,5% ao ano. Já na displasia de alto grau, o risco anual é de aproximadamente 6%.
Entre 3% e 5% das pessoas com a condição desenvolvem adenocarcinoma esofágico ao longo da vida. Esses números mostram que o risco existe, mas é pequeno quando a condição é monitorada adequadamente.
O acompanhamento regular com endoscopias é a melhor estratégia para detectar alterações precoces e agir a tempo.
O tratamento tem dois objetivos principais: controlar o refluxo para interromper a agressão ao esôfago e monitorar possíveis alterações celulares.
O controle do refluxo é feito com inibidores da bomba de prótons (IBPs), como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol. Esses medicamentos reduzem a produção de ácido gástrico, diminuindo a agressão ao tecido esofágico.
Na presença de Barrett, o uso costuma ser contínuo e em dose plena ou dobrada, conforme a gravidade do refluxo, mesmo quando os sintomas melhoram.
O tratamento de longo prazo com IBPs exige acompanhamento médico regular por causa de um efeito chamado hipocloridria crônica, que é a redução persistente do ácido no estômago.
Essa condição pode prejudicar a absorção de nutrientes como cálcio, magnésio, ferro e vitamina B12, aumentando o risco de fraturas ósseas e anemia ao longo dos anos.
A hipocloridria também altera a flora intestinal e pode elevar a suscetibilidade a infecções entéricas. Por isso, o médico acompanha periodicamente os níveis desses nutrientes e ajusta o tratamento conforme necessário. Os benefícios dos IBPs no controle do Barrett superam os riscos quando há monitoramento adequado.
Para pacientes em que os IBPs não controlam o refluxo de forma satisfatória, ou que apresentam hérnia de hiato volumosa, a cirurgia antirrefluxo pode ser indicada.
A fundoplicatura, realizada por videolaparoscopia ou cirurgia robótica, envolve o posicionamento do fundo gástrico ao redor do esôfago inferior para reconstruir a barreira contra o refluxo.
A via robótica oferece visão tridimensional ampliada e movimentos de alta precisão, o que favorece a dissecção em áreas delicadas como a transição esofagogástrica. Veja mais sobre a cirurgia antirrefluxo em nosso artigo.
A grande vantagem da cirurgia é que ela controla tanto o refluxo ácido quanto o não ácido, algo que os IBPs não conseguem. Estudos indicam que a fundoplicatura pode promover a regressão parcial da metaplasia de Barrett em cerca de 30% dos pacientes nos primeiros meses após o procedimento, além de reduzir o risco de progressão para adenocarcinoma em comparação ao tratamento medicamentoso isolado.
A vigilância por endoscopia segue um calendário definido pelo grau de displasia. Quando não há displasia, a endoscopia de controle costuma ser realizada a cada 3 a 5 anos. Com displasia de baixo grau, os intervalos são mais curtos. Na displasia de alto grau, o tratamento endoscópico costuma ser indicado.
Quando há displasia confirmada ou câncer em estágio inicial restrito à mucosa, o tratamento endoscópico é a abordagem de escolha. Duas técnicas são utilizadas, muitas vezes de forma combinada.
A ablação por radiofrequência (RFA) utiliza um cateter que emite energia térmica controlada sobre o tecido de Barrett, destruindo as células alteradas. O organismo regenera o revestimento com tecido esofágico normal.
O procedimento costuma ser realizado em 2 a 3 sessões, com intervalos de 2 a 3 meses entre elas. A taxa de eliminação completa da displasia alcança mais de 90%, e a erradicação da metaplasia intestinal chega a cerca de 80% dos pacientes.
A mucosectomia endoscópica (ressecção endoscópica da mucosa) é indicada quando há lesões visíveis, nódulos ou áreas elevadas dentro do segmento de Barrett. O médico injeta uma solução sob a mucosa para elevar a lesão e, em seguida, remove o tecido com uma alça especial.
A principal vantagem da mucosectomia é que o fragmento retirado é enviado para análise, permitindo avaliar com precisão o tipo e a profundidade da alteração.
Na prática, as duas técnicas são frequentemente combinadas: a mucosectomia remove as lesões visíveis e fornece o diagnóstico histológico, e a radiofrequência trata o tecido de Barrett restante. Juntas, alcançam sucesso em 80% a 90% dos casos, evitando cirurgias mais extensas na grande maioria dos pacientes.
As mudanças no estilo de vida não são apenas complementares ao tratamento medicamentoso. Elas são parte essencial do cuidado com o esôfago de Barrett, porque reduzem a exposição do esôfago ao ácido gástrico e atuam diretamente sobre os fatores de risco modificáveis.
A perda de peso, especialmente a redução da gordura abdominal, é a medida com maior evidência de benefício. O excesso de peso na região central do corpo aumenta a pressão sobre o estômago e agrava o refluxo. Mesmo perdas modestas já trazem melhora significativa nos episódios de refluxo.
Evitar refeições volumosas ou ricas em gordura nas 3 horas que antecedem o sono reduz os episódios noturnos de refluxo. Elevar a cabeceira da cama em 15 a 20 centímetros é outra medida eficaz, pois a posição inclinada dificulta o retorno do ácido ao esôfago durante a noite.
O abandono do tabagismo merece atenção especial, já que o tabaco é tanto fator de risco para o Barrett quanto para a progressão da displasia. Reduzir o consumo de álcool, café, alimentos ácidos e condimentados também contribui para diminuir a irritação esofágica.
Pessoas com refluxo de longa duração, especialmente homens acima de 50 anos com fatores de risco adicionais, devem conversar com seu médico sobre a possibilidade de realizar uma endoscopia para rastreamento.
Se você convive com refluxo há anos ou recebeu o diagnóstico de Barrett, o acompanhamento médico regular é o melhor caminho para cuidar da sua saúde com segurança. Cada caso tem suas particularidades, e o olhar de um especialista faz toda a diferença.
O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião, com consultório no Jardim Paulista, em São Paulo. Ele combina técnica, acolhimento e tecnologia para oferecer o melhor cuidado a cada paciente.
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O esôfago de Barrett é uma condição que merece atenção, mas não precisa ser motivo de desespero. Com diagnóstico adequado, acompanhamento regular e tratamento correto, a grande maioria dos pacientes vive com segurança e qualidade de vida.
O passo mais importante é não adiar a avaliação, especialmente se você convive com refluxo há bastante tempo. A investigação precoce abre caminho para um cuidado preventivo que faz toda a diferença.
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A metaplasia intestinal não costuma regredir por completo. Porém, o controle do refluxo e o acompanhamento endoscópico impedem a progressão da condição na grande maioria dos casos.
Nos casos sem displasia, a endoscopia de controle costuma ser a cada 3 a 5 anos. Quando há displasia, os intervalos são mais curtos e o médico define a frequência ideal para cada paciente.
Sim. Muitas pessoas não apresentam sintomas e descobrem a condição durante uma endoscopia realizada para investigar refluxo ou outras queixas. Por isso, o rastreamento é tão importante em pessoas com fatores de risco.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
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