"Se o tumor está ali, por que não tirar logo?"
Essa é a pergunta que quase todo paciente faz ao receber o diagnóstico de câncer de reto e ouvir que, antes da cirurgia, precisará passar por semanas de quimioterapia e radioterapia. A reação é compreensível. Parece contra intuitivo esperar quando existe um tumor que pode ser removido.
Mas décadas de pesquisa oncológica responderam a essa pergunta de forma contundente. O estudo alemão CAO/ARO/AIO-94, publicado no New England Journal of Medicine, comparou as duas abordagens: quimiorradioterapia antes versus depois da cirurgia. Os resultados mostraram que o tratamento antes da cirurgia reduziu a recidiva local de 13% para 6%, com menos efeitos colaterais e maior taxa de preservação do esfíncter anal.
Desde então, a quimioterapia e a radioterapia antes da cirurgia (tratamento neoadjuvante) se tornaram o padrão de cuidado mundial para o câncer de reto localmente avançado. Neste artigo, vou explicar por que cada semana desse tratamento trabalha a favor do seu resultado.
O que significa tratamento neoadjuvante no câncer de reto?
Neoadjuvante é o tratamento realizado antes da cirurgia, com o objetivo de criar as melhores condições possíveis para o procedimento. No câncer de reto, isso significa combinar quimioterapia e radioterapia (quimiorradioterapia) durante 5 a 6 semanas antes de operar.
Essa abordagem se aplica ao câncer de reto localmente avançado (estágios II e III): tumores que invadem camadas profundas da parede retal e/ou apresentam comprometimento de linfonodos regionais, identificados pela ressonância magnética da pelve e pela tomografia.
Para tumores em estágio inicial (T1-T2, sem linfonodos comprometidos), a cirurgia pode ser realizada diretamente, sem necessidade de tratamento prévio.
Por que o reto exige uma estratégia diferente do cólon?
Se o câncer de cólon é operado diretamente na maioria dos casos, por que o câncer de reto precisa de tratamento antes? A resposta está na anatomia.
O reto ocupa os últimos 12 a 15 cm do intestino grosso, localizado dentro da pelve, um espaço ósseo estreito cercado por:
● Bexiga (à frente, no homem e na mulher)
● Próstata e vesículas seminais (no homem) ou útero e vagina (na mulher)
● Nervos pélvicos que controlam a função sexual, a ereção, a ejaculação e o esvaziamento da bexiga
● Esfíncter anal, responsável pela continência fecal
Essa vizinhança apertada cria dois problemas que o câncer de cólon não enfrenta com a mesma intensidade:
● Risco alto de recidiva local (retorno do tumor na pelve): pela dificuldade de obter margens cirúrgicas amplas em um espaço confinado
● Risco de perda do esfíncter: tumores do reto baixo podem exigir a amputação abdominoperineal, com colostomia definitiva
A quimioterapia e a radioterapia antes da cirurgia de câncer de reto atacam diretamente esses dois problemas.

Quais os benefícios comprovados da quimiorradioterapia antes da cirurgia?
Os estudos clínicos de grande porte trouxeram evidências sólidas. Os benefícios são múltiplos e se potencializam:
Redução drástica da recidiva local
O estudo alemão CAO/ARO/AIO-94 demonstrou queda na recidiva local de 13% para 6% com o tratamento neoadjuvante. Estudos subsequentes com técnicas modernas mostram taxas de recidiva local abaixo de 5%. Isso significa que, a cada 100 pacientes tratados com neoadjuvância, 7 a 8 a menos terão o tumor voltando na pelve.
Redução do tumor (downstaging)
A quimiorradioterapia reduz o volume e o estágio do tumor. Um tumor que invadia toda a parede retal e comprometia linfonodos pode regredir a ponto de ficar restrito às camadas superficiais, sem linfonodos positivos. Essa redução facilita a cirurgia e melhora diretamente o prognóstico.
Preservação do esfíncter anal
Ao reduzir o tamanho do tumor, o tratamento neoadjuvante pode transformar uma cirurgia que exigiria amputação (com colostomia permanente) em uma cirurgia com preservação do esfíncter e do ânus. Para o paciente, essa diferença é transformadora em termos de qualidade de vida.
Resposta patológica completa
Em 15% a 30% dos pacientes, o tratamento neoadjuvante é tão eficaz que, quando o patologista analisa a peça cirúrgica, não encontra mais células tumorais viáveis. Essa resposta patológica completa está associada a excelentes resultados de sobrevida a longo prazo.

Como é feita a quimioterapia e a radioterapia antes da cirurgia de câncer de reto?
Esquema convencional de quimiorradioterapia
● Radioterapia: sessões diárias de segunda a sexta-feira, durante 5 semanas (25 sessões), com radiação direcionada ao reto e à pelve
● Quimioterapia simultânea: geralmente com capecitabina (comprimido via oral) ou 5-fluorouracil (intravenoso). A quimioterapia potencializa o efeito da radiação sobre as células tumorais, tornando-as mais vulneráveis
● Intervalo até a cirurgia: após o término, aguarde de 8 a 12 semanas para que o efeito máximo do tratamento se manifeste. É nesse intervalo que o tumor regride ao máximo
Terapia neoadjuvante total (TNT): a abordagem mais recente
A terapia neoadjuvante total é uma evolução do esquema clássico. Nela, toda a quimioterapia sistêmica é concentrada antes da cirurgia (em vez de dividida entre antes e depois).
Dois grandes estudos sustentam essa abordagem:
● RÁPIDO (Lancet Oncology, 2021): demonstrou que a TNT aumentou a taxa de resposta patológica completa para 28%, contra 14% no esquema convencional
● PRODIGE 23 (Lancet Oncology, 2021): mostrou melhora na sobrevida livre de doença em 3 anos: 76% com TNT versus 69% no esquema padrão
Na prática, o paciente recebe ciclos de quimioterapia sistêmica (FOLFOX ou FOLFIRINOX) antes ou depois da quimiorradioterapia, completando todo o tratamento sistêmico antes de ir para a cirurgia.

E se o tumor desaparecer completamente nos exames?
Quando a reavaliação após o tratamento neoadjuvante (ressonância, toque retal, retossigmoidoscopia) não detecta mais tumor, surge uma possibilidade que tem revolucionado o tratamento do câncer de reto: a estratégia de vigilância ativa (watch and wait).
Essa abordagem, pioneira da Dra. Angelita Habr-Gama no Brasil, propõe que pacientes com resposta clínica completa confirmada sejam acompanhados de forma rigorosa sem realizar a cirurgia imediatamente. Se o tumor reaparecer (recrescimento), a cirurgia é realizada naquele momento.
Os dados publicados são encorajadores:
● Cerca de 70% dos pacientes em resposta clínica completa mantêm essa resposta a longo prazo e nunca precisam operar
● Os 30% que apresentam recrescimento são operados no momento da detecção, sem prejuízo oncológico comprovado quando o acompanhamento é rigoroso
Essa estratégia não é para todos. Exige:
● Resposta clínica completa confirmada por múltiplos métodos (ressonância, toque, endoscopia)
● Acompanhamento intensivo nos primeiros 2 anos (consultas e exames a cada 2 a 3 meses)
● Centro com experiência e protocolo estruturado para watch and wait
● Paciente comprometido com o acompanhamento e ciente dos riscos
Quando bem indicada, a vigilância ativa permite preservar o reto, o esfíncter, a função sexual e urinária, evitando uma cirurgia de grande porte e suas consequências.
Cirurgia robótica no câncer de reto após o tratamento neoadjuvante
Após a quimioterapia e a radioterapia, a cirurgia é realizada para remover o tumor (ou a área onde ele estava). A técnica mais importante nessa cirurgia é a excisão total do mesorreto (TME), que remove o reto junto com toda a gordura e linfonodos ao redor em um bloco intacto. A qualidade da TME é o principal fator técnico para evitar a recidiva local.
A cirurgia robótica se destaca nesse cenário por razões anatômicas:
● Visão 3D ampliada que permite identificar os planos de dissecção com precisão milimétrica na pelve estreita
● Instrumentos articulados com 7 graus de liberdade, essenciais para operar em espaço confinado
● Preservação dos nervos pélvicos com maior segurança, reduzindo disfunção sexual e urinária pós-operatória
● Qualidade superior da TME, que se traduz em menor taxa de margem comprometida
Para o paciente, isso significa menos dor no pós-operatório, recuperação mais rápida e, principalmente, menor risco de sequelas funcionais.
FAQ: Dúvidas frequentes sobre quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia de câncer de reto
O tratamento neoadjuvante atrasa a cirurgia e isso não é perigoso?
Não. O intervalo entre o fim da quimiorradioterapia e a cirurgia é planejado e estratégico. Durante esse período, o tumor continua regredindo. Estudos demonstraram que aguardar de 8 a 12 semanas (em vez de operar em 6 semanas) aumenta as taxas de resposta patológica completa sem comprometer a sobrevida. A "espera" trabalha a favor, não contra.
Quais os efeitos colaterais durante o tratamento?
Os mais comuns são fadiga, diarreia, irritação da pele pélvica (dermatite actínica) e desconforto retal. A maioria é temporária e controlável com medicamentos de suporte. Efeitos mais intensos podem exigir ajuste de dose, mas a interrupção do tratamento é incomum. A equipe oncológica acompanha cada sessão.
Posso trabalhar durante as 5 semanas de tratamento?
Muitos pacientes mantêm atividades leves durante a quimiorradioterapia, especialmente nas primeiras semanas. A fadiga tende a se acumular a partir da terceira semana. A decisão depende do tipo de atividade e da resposta individual. Discuta com sua equipe médica para planejar o afastamento, se necessário.
Se o tumor sumir, ainda preciso operar?
A cirurgia continua sendo o padrão de tratamento para a maioria dos pacientes, mesmo com boa resposta. A resposta clínica completa (tumor invisível nos exames) não garante que todas as células tumorais foram eliminadas, pois podem existir células microscópicas residuais. A estratégia de vigilância ativa (watch and wait) é uma alternativa válida para casos selecionados, com acompanhamento rigoroso.
Cada etapa do tratamento do câncer de reto tem um propósito claro
Quando seu médico propõe quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia de câncer de reto, ele está seguindo a melhor evidência científica disponível: menor recidiva, maior chance de preservar o esfíncter, possibilidade de resposta completa. Cada sessão de radioterapia, cada comprimido de capecitabina está trabalhando para que a cirurgia seja mais precisa, menos extensa e com melhor resultado oncológico. Confie no planejamento e tire todas as suas dúvidas com a equipe que cuida de você.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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