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SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

Doenças do Intestino17 de set. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

O SIBO, sigla em inglês para Small Intestinal Bacterial Overgrowth, é uma condição em que bactérias crescem em quantidade excessiva no intestino delgado. Normalmente, esse trecho do trato digestivo abriga uma população bacteriana pequena. Quando esse equilíbrio se rompe, surgem sintomas que afetam diretamente a digestão e a absorção de nutrientes.

Distensão abdominal, excesso de gases, diarreia e desconforto após as refeições são queixas frequentes em quem tem SIBO. O problema é que esses sintomas se confundem facilmente com outras condições, como a síndrome do intestino irritável, o que faz com que muitos pacientes demorem a receber o diagnóstico correto.

Neste artigo, você vai entender o que causa o supercrescimento bacteriano, como ele é investigado e quais são as opções de tratamento disponíveis.

O que é SIBO?

O intestino delgado, em condições normais, mantém uma população bacteriana reduzida. Essa baixa concentração é mantida por mecanismos de defesa como a acidez do estômago, os movimentos do intestino e a válvula ileocecal, que impede o refluxo de bactérias do cólon para o intestino delgado.

Quando um ou mais desses mecanismos falham, as bactérias se multiplicam além do normal no intestino delgado. O StatPearls, publicação de referência do National Library of Medicine, define o SIBO como a presença de contagem bacteriana elevada de forma sustentada acompanhada de sintomas digestivos clinicamente relevantes.

SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

Essas bactérias em excesso fermentam os nutrientes que deveriam ser absorvidos, produzindo gases como hidrogênio e metano. Além do desconforto, esse processo pode levar a deficiências nutricionais ao longo do tempo.

Causas e fatores de risco do SIBO

O SIBO não surge isoladamente. Ele é quase sempre consequência de uma alteração anatômica ou funcional que compromete os mecanismos de proteção do intestino delgado. As causas e fatores de risco mais relevantes incluem:

  1. Uso prolongado de inibidores de bomba de prótons: a redução da acidez gástrica favorece a migração de bactérias para o intestino delgado
  2. Alterações nos movimentos do intestino: condições como diabetes, esclerodermia e hipotireoidismo reduzem os movimentos intestinais e favorecem o acúmulo de bactérias
  3. Aderências e estreitamentos: cirurgias abdominais prévias podem criar áreas de estagnação no intestino
  4. Síndrome do intestino curto: a redução do comprimento intestinal altera o ecossistema bacteriano
  5. Válvula ileocecal incompetente: permite o refluxo de bactérias do cólon para o delgado

Artigo do portal Afya reforça que o diagnóstico criterioso é essencial, pois o SIBO frequentemente coexiste com outras condições gastrointestinais que também precisam ser tratadas.

Sintomas do supercrescimento bacteriano no intestino delgado

Os sintomas do SIBO refletem a fermentação excessiva dos nutrientes pelas bactérias no intestino delgado. Os mais frequentes são distensão abdominal, sensação de empachamento, flatulência excessiva, cólicas e diarreia.

Em casos mais prolongados, o SIBO pode levar a deficiências nutricionais significativas. A má absorção de gorduras provoca esteatorreia (gordura nas fezes), enquanto a competição bacteriana pelo consumo de vitamina B12 pode causar anemia e sintomas neurológicos. Deficiências de ferro e vitaminas lipossolúveis também são possíveis.

O Manual Merck para profissionais destaca que o SIBO deve ser considerado em todo paciente com distensão abdominal crônica e diarreia que não responde ao tratamento convencional, especialmente quando há fatores de risco associados.

SIBO e síndrome do intestino irritável: qual a relação?

Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. O SIBO e a síndrome do intestino irritável compartilham sintomas muito semelhantes, como distensão, gases, dor abdominal e alteração do hábito intestinal. Não é raro que um paciente com SIBO tenha recebido previamente o diagnóstico de SII.

Meta-análise publicada na Frontiers in Microbiology avaliou a relação entre as duas condições e concluiu que há uma prevalência significativamente maior de SIBO em pacientes com SII quando comparados a controles saudáveis. O tratamento com rifaximina nesses pacientes resultou em melhora dos sintomas intestinais.

Isso não significa que toda SII é SIBO, nem o contrário. Mas a sobreposição entre as duas condições justifica a investigação com teste respiratório em pacientes com SII que não respondem ao tratamento.

Os detalhes estão no artigo sobre a síndrome do intestino irritável e suas formas de tratamento.

Diagnóstico do SIBO

O principal exame para confirmar o SIBO é o teste respiratório de hidrogênio e metano. O paciente ingere uma solução de glicose ou lactulose e, ao longo de duas a três horas, amostras do ar expirado são coletadas para medir a produção de gases.

SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

O posicionamento oficial da Federação Brasileira de Gastroenterologia, publicado nos Arquivos de Gastroenterologia em 2025, define que o resultado é considerado positivo quando há aumento superior a 20 ppm de hidrogênio nos primeiros 90 minutos ou aumento superior a 10 ppm de metano em qualquer momento do exame.

O exame é não invasivo, acessível e pode ser realizado em ambiente ambulatorial. A cultura do aspirado jejunal, embora mais precisa, é invasiva e pouco utilizada na prática clínica.

Tratamento do SIBO

O tratamento do SIBO combina antibioticoterapia, ajuste alimentar e correção da causa de base. Sem tratar o fator que permitiu o supercrescimento, a recorrência é alta.

O antibiótico mais utilizado é a rifaximina, administrada na dose de 550 mg três vezes ao dia por 14 dias. Estudo publicado no PubMed mostrou que a rifaximina é particularmente eficaz nos casos com predominância de hidrogênio, com taxas de resposta entre 47% e 80% dependendo do tipo de positividade no teste respiratório.

Nos casos com predominância de metano (atualmente chamado de IMO, que significa supercrescimento intestinal de metanógenos), a combinação de rifaximina com neomicina ou metronidazol pode ser necessária.

A fitoterapia também tem espaço no tratamento do SIBO. Estudo conduzido na Universidade Johns Hopkins comparou fitoterápicos com propriedades antimicrobianas, como óleo de orégano, alicina do alho e berberina, com a rifaximina, e encontrou taxas de erradicação de 46% no grupo da fitoterapia contra 34% no grupo do antibiótico.

Vale reforçar que os fitoterápicos não devem ser usados por conta própria. A escolha do protocolo, a dose e a duração dependem do tipo de supercrescimento identificado no teste respiratório e da avaliação médica.

Alimentação e SIBO: o que ajuda e o que piora

A dieta é uma ferramenta complementar importante no manejo do SIBO. A abordagem mais estudada é a dieta pobre em FODMAPs, que restringe carboidratos fermentáveis (como certos açúcares presentes em leite, trigo, frutas e leguminosas) que servem de alimento para as bactérias em excesso.

SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

Revisão narrativa publicada na MDPI descreve que a combinação de rifaximina com goma guar parcialmente hidrolisada resultou em taxa de erradicação do SIBO superior ao uso de rifaximina isolada, indicando que a modulação alimentar potencializa o tratamento.

Alimentos que costumam piorar os sintomas incluem leite e derivados, trigo, leguminosas em excesso, adoçantes artificiais e frutas com alto teor de frutose. O acompanhamento nutricional é fundamental para evitar restrições excessivas que comprometam o estado nutricional.

O blog do Dr. Fernando Bray já abordou o papel da microbiota intestinal na saúde. Veja o artigo sobre bactérias intestinais e microbiota.

SIBO pode voltar após o tratamento?

Sim. A recorrência é um dos maiores desafios no manejo do SIBO. O StatPearls estima que aproximadamente 45% dos pacientes apresentam recidiva após o término do tratamento com antibióticos, o que reforça a necessidade de tratar a causa de base e não apenas os sintomas.

Por isso, tratar apenas a infecção bacteriana não é suficiente. É necessário identificar e corrigir o fator que permitiu o supercrescimento, seja ele uma alteração nos movimentos do intestino, o uso de medicamentos que reduzem a acidez gástrica ou uma condição anatômica pós-cirúrgica.

Estratégias para prevenir a recorrência incluem uso de medicamentos que estimulam os movimentos do intestino (chamados de procinéticos), ajuste alimentar a longo prazo, revisão de medicamentos que possam favorecer o SIBO e acompanhamento clínico periódico com repetição do teste respiratório quando indicado.

Acompanhamento do SIBO com o Dr. Fernando Bray

O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista. Atua em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

SIBO: entenda o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e saiba como tratar

O SIBO exige uma investigação cuidadosa para identificar a causa do supercrescimento e definir o tratamento mais adequado. O Dr. Bray conduz a avaliação de forma completa, integrando o exame clínico, a solicitação do teste respiratório e o acompanhamento terapêutico de cada paciente.

Quando o SIBO está associado a alterações anatômicas como aderências ou estreitamentos, o Dr. Bray avalia a necessidade de correção cirúrgica para restabelecer o trânsito intestinal normal e reduzir o risco de recorrência.

Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray

Conclusão

O SIBO é uma condição que compromete a digestão e a absorção de nutrientes, gerando sintomas que afetam diretamente a qualidade de vida. O diagnóstico é acessível por meio do teste respiratório e o tratamento, quando bem conduzido, traz alívio significativo dos sintomas.

O ponto central é não tratar apenas a consequência. Identificar e corrigir a causa do supercrescimento bacteriano é o que diferencia um tratamento que resolve de um que apenas adia a recorrência.

Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para se manter informado sobre saúde intestinal e digestiva.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

FAQ: Perguntas frequentes sobre SIBO

O SIBO aparece em exame de sangue?

Não. O exame de sangue pode mostrar consequências do SIBO, como anemia ou deficiência de vitaminas, mas o diagnóstico da condição em si é feito pelo teste respiratório de hidrogênio e metano.

Probióticos ajudam no tratamento do SIBO?

O uso de probióticos no SIBO é controverso. Em alguns pacientes eles podem auxiliar na recuperação da flora intestinal após o tratamento, mas em outros podem piorar os sintomas. A prescrição deve ser individualizada e orientada por um especialista.

SIBO causa intolerância à lactose?

O SIBO pode provocar uma intolerância à lactose secundária, pois as bactérias em excesso danificam a parede do intestino delgado e reduzem a produção de lactase. Essa intolerância tende a melhorar após o tratamento adequado do supercrescimento.

Quanto tempo leva para o SIBO melhorar com tratamento?

A maioria dos pacientes percebe melhora dos sintomas dentro das duas primeiras semanas de antibioticoterapia. Porém, a recuperação completa da parede intestinal e a estabilização da flora podem levar semanas a meses, dependendo da gravidade.

Referências

Quigley EMM et al. Small Intestinal Bacterial Overgrowth. StatPearls, National Library of Medicine, 2024.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK546634/

Portal Afya. SIBO: diagnóstico e tratamento do supercrescimento bacteriano do intestino delgado. Portal Afya, 2024.

https://portal.afya.com.br/clinica-medica/sibo-diagnostico-e-tratamento-do-supercrescimento-bacteriano-do-intestino-delgado

Merck Manual Professional Edition. Small Intestinal Bacterial Overgrowth (SIBO). Merck Manuals, 2024.

https://www.merckmanuals.com/professional/gastrointestinal-disorders/malabsorption-syndromes/small-intestinal-bacterial-overgrowth-sibo

Chen B et al. Relationship between small intestinal bacterial overgrowth and irritable bowel syndrome and the efficacy of rifaximin intervention: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Microbiology, 2026.

https://www.frontiersin.org/journals/microbiology/articles/10.3389/fmicb.2026.1780567/full

Federação Brasileira de Gastroenterologia. Diagnóstico e tratamento do supercrescimento bacteriano no intestino delgado: um posicionamento oficial. Arquivos de Gastroenterologia, 2025.

https://busqueda.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1596699

Lauritano EC et al. Preferential usage of rifaximin for the treatment of hydrogen-positive small intestinal bacterial overgrowth. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 2019.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31333225/

Chedid V et al. Dietary and Medical Management of Small-Intestinal Bacterial Overgrowth: A Narrative Review. MDPI Dietetics, 2024.

https://www.mdpi.com/2674-0311/5/1/10

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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