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Pancreatite aguda: como reconhecer a emergência e o que acontece no tratamento

Doenças da Vesícula Biliar e Fígado27 de set. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
Pancreatite aguda: como reconhecer a emergência e o que acontece no tratamento

Uma dor intensa na parte superior do abdome, que atravessa o corpo e irradia para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos que não aliviam. Esse é o retrato clássico da pancreatite aguda, uma das emergências mais frequentes da gastroenterologia.

Diferentemente de muitas dores abdominais que melhoram com o tempo, a pancreatite aguda exige atendimento imediato. A inflamação do pâncreas pode variar de um quadro leve, que se resolve em dias, a uma doença grave com risco de vida.

Neste artigo, você vai aprender a reconhecer os sintomas da pancreatite aguda, entender por que ela acontece e saber exatamente o que esperar do tratamento, da internação à cirurgia.

O que é a pancreatite aguda?

A pancreatite aguda é a inflamação súbita do pâncreas, a glândula localizada atrás do estômago que produz enzimas digestivas e insulina. Na crise, as enzimas que deveriam digerir os alimentos são ativadas dentro do próprio órgão e passam a agredir o tecido pancreático.

O Manual MSD descreve a doença como uma inflamação que se desenvolve rapidamente e cuja gravidade varia de leve e autolimitada a potencialmente fatal, conforme a extensão do dano ao pâncreas e aos órgãos vizinhos.

O blog já explicou a inflamação do pâncreas em visão geral. Este artigo aprofunda a forma aguda, a que leva o paciente ao pronto-socorro.

Veja o panorama completo em pancreatite: entenda a inflamação no pâncreas.

Sintomas: a dor que irradia para as costas

O sintoma central da pancreatite aguda é inconfundível para quem já sentiu. Uma dor forte e contínua na região superior do abdome, em faixa, irradiando para as costas, que piora após alimentação e melhora pouco com analgésicos comuns.

Náuseas e vômitos persistentes acompanham a dor na maioria dos casos. Febre, abdome distendido e sensível ao toque e aceleração dos batimentos completam o quadro típico.

Pancreatite aguda: como reconhecer a emergência e o que acontece no tratamento

Um detalhe ajuda a diferenciar de outras dores abdominais: o paciente com pancreatite aguda costuma buscar alívio inclinado para a frente, posição que reduz a pressão sobre o pâncreas. Deitar de costas geralmente piora a dor.

Pancreatite aguda é grave?

Depende da forma que a doença assume, e essa resposta tem números bem definidos. A classificação internacional de Atlanta divide a pancreatite aguda em leve, moderada e grave, conforme a presença de falência de órgãos e complicações.

A boa notícia vem da estatística: cerca de 80% dos casos são leves, com recuperação completa em poucos dias de internação. Os 20% restantes desenvolvem formas moderadas ou graves, que exigem cuidados intensivos, conforme os critérios revisados de Atlanta.

A gravidade não pode ser prevista pela intensidade da dor. Quadros dolorosos podem ser leves e quadros de dor moderada podem evoluir mal, e é por isso que toda suspeita de pancreatite aguda deve ser avaliada no hospital, sem exceção.

Principais causas da pancreatite aguda

Duas causas dominam as estatísticas e juntas respondem pela grande maioria dos casos:

● Cálculos biliares: pedras da vesícula migram e obstruem o canal que drena o pâncreas, represando as enzimas. É a principal causa, mais comum em mulheres

● Consumo de álcool: o excesso agudo ou crônico agride diretamente as células pancreáticas, causa mais frequente em homens

● Triglicerídeos muito elevados: níveis acima de 1.000 mg/dL podem desencadear a crise

● Medicamentos e procedimentos: algumas drogas e a colangiopancreatografia endoscópica têm risco conhecido

● Causas raras: infecções, traumas e alterações genéticas

Como a pedra na vesícula lidera o ranking, prevenir a pancreatite aguda muitas vezes significa tratar a vesícula a tempo. Entenda os sinais da pedra na vesícula e quando operar.

Como o diagnóstico é confirmado

O diagnóstico da pancreatite aguda combina três elementos: a dor abdominal característica, a elevação das enzimas pancreáticas no sangue e os achados de imagem.

O exame de sangue é o pilar central. A lipase elevada acima de três vezes o valor normal, no contexto da dor típica, praticamente confirma o diagnóstico. A amilase complementa a avaliação.

Os exames de imagem definem a causa e a gravidade. O ultrassom procura cálculos na vesícula, e a tomografia avalia a extensão da inflamação quando o quadro não evolui bem nas primeiras 48 a 72 horas.

Nos casos sem causa aparente, a investigação continua após a alta, com pesquisa ativa da microlitíase biliar, os cálculos minúsculos que escapam do ultrassom comum e que respondem por parte das pancreatites ditas "sem causa".

Pancreatite aguda: tratamento durante a internação

Não existe remédio que desligue a inflamação do pâncreas. O tratamento da pancreatite aguda se apoia em três pilares que dão ao órgão as condições de se recuperar: hidratação venosa vigorosa, controle da dor e realimentação progressiva.

A Cleveland Clinic destaca que a hidratação intensa nas primeiras 24 a 48 horas é a medida que mais influencia a evolução, prevenindo as complicações da fase inicial.

A realimentação começa assim que a dor permite, de preferência precocemente. Nos casos leves, o paciente recebe alta em poucos dias. Nos graves, a internação se estende, podendo incluir UTI, suporte nutricional e procedimentos para tratar complicações como coleções e necrose.

Pancreatite aguda: como reconhecer a emergência e o que acontece no tratamento

Quando a cirurgia entra no tratamento

Na pancreatite aguda de causa biliar, a cirurgia não trata o pâncreas, trata a origem do problema. A retirada da vesícula biliar é indicada para impedir novas crises, e o momento ideal é na mesma internação, nos casos leves, antes da alta hospitalar.

A colecistectomia é realizada por videolaparoscopia, com pequenas incisões e recuperação rápida. Adiar a cirurgia expõe o paciente a um risco real de recorrência da pancreatite nas semanas seguintes.

Quando há cálculo obstruindo o canal biliar, a colangiopancreatografia endoscópica pode ser necessária antes, para desobstruir a via. Nos raros casos com necrose infectada, procedimentos de drenagem e limpeza são indicados em momento planejado, preferindo as técnicas minimamente invasivas.

Tratamento da pancreatite aguda com o Dr. Fernando Bray

O Dr. Fernando Bray é gastrocirurgião e coloproctologista em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista. Atua em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

Pancreatite aguda: como reconhecer a emergência e o que acontece no tratamento

Como gastrocirurgião, o Dr. Bray atua exatamente na interface que a pancreatite aguda exige: a avaliação da causa, a decisão do momento cirúrgico e a realização da colecistectomia por videolaparoscopia para eliminar a origem biliar das crises.

Após a alta, o acompanhamento continua com a investigação das causas não identificadas e a orientação para prevenir recorrências, incluindo o cuidado com os fatores metabólicos.

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Conclusão

A pancreatite aguda é o tipo de doença que não dá segunda chance ao descaso. A dor típica, intensa e irradiada para as costas, é o corpo pedindo atendimento imediato, e a rapidez na chegada ao hospital muda o curso da doença.

A outra metade da história acontece depois da crise: tratar a causa, quase sempre a vesícula, é o que impede o retorno da pancreatite. Quem já teve uma crise não deve conviver com uma vesícula doente.

Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para entender melhor as doenças do aparelho digestivo.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes sobre pancreatite aguda

Pancreatite aguda mata?

Pode, nas formas graves, que representam a minoria dos casos. Cerca de 80% dos episódios são leves e evoluem bem com o tratamento hospitalar. O risco aumenta com a demora no atendimento, a falência de órgãos e a necrose infectada, por isso a avaliação imediata é decisiva.

Quantos dias fica internado quem tem pancreatite aguda?

Nos casos leves, a internação costuma durar poucos dias, até o controle da dor e a realimentação completa. Formas moderadas e graves exigem semanas, podendo incluir UTI. O tempo depende da evolução individual e da causa identificada.

Quem teve pancreatite aguda precisa operar a vesícula?

Quando a causa é biliar, sim. A retirada da vesícula é a única forma de impedir novas crises, e o momento preferido é na mesma internação, nos quadros leves. Manter a vesícula com cálculos após uma pancreatite é um risco desnecessário.

O que não pode comer depois de uma pancreatite aguda?

Na recuperação, a orientação é uma dieta com pouca gordura, sem álcool e com refeições fracionadas. A evolução da dieta é individualizada e definida pelo médico conforme a recuperação do pâncreas e a causa da crise.

Referências

MSD Manuals. Pancreatite aguda. Manual MSD, versão para a família, 2024. https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-digestivos/pancreatite/pancreatite-aguda

Pancreatite aguda sem etiologia aparente: a microlitíase deve ser pesquisada? Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. https://www.scielo.br/j/rcbc/a/yNNsjxhHjM7GRZChtjTBCnN/

Cleveland Clinic. Pancreatitis: Symptoms, Causes & Treatment. Cleveland Clinic, 2024. https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/8103-pancreatitis

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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