Uma dor intensa na parte superior do abdome, que atravessa o corpo e irradia para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos que não aliviam. Esse é o retrato clássico da pancreatite aguda, uma das emergências mais frequentes da gastroenterologia.
Diferentemente de muitas dores abdominais que melhoram com o tempo, a pancreatite aguda exige atendimento imediato. A inflamação do pâncreas pode variar de um quadro leve, que se resolve em dias, a uma doença grave com risco de vida.
Neste artigo, você vai aprender a reconhecer os sintomas da pancreatite aguda, entender por que ela acontece e saber exatamente o que esperar do tratamento, da internação à cirurgia.
O que é a pancreatite aguda?
A pancreatite aguda é a inflamação súbita do pâncreas, a glândula localizada atrás do estômago que produz enzimas digestivas e insulina. Na crise, as enzimas que deveriam digerir os alimentos são ativadas dentro do próprio órgão e passam a agredir o tecido pancreático.
O Manual MSD descreve a doença como uma inflamação que se desenvolve rapidamente e cuja gravidade varia de leve e autolimitada a potencialmente fatal, conforme a extensão do dano ao pâncreas e aos órgãos vizinhos.
O blog já explicou a inflamação do pâncreas em visão geral. Este artigo aprofunda a forma aguda, a que leva o paciente ao pronto-socorro.
Veja o panorama completo em pancreatite: entenda a inflamação no pâncreas.
Sintomas: a dor que irradia para as costas
O sintoma central da pancreatite aguda é inconfundível para quem já sentiu. Uma dor forte e contínua na região superior do abdome, em faixa, irradiando para as costas, que piora após alimentação e melhora pouco com analgésicos comuns.
Náuseas e vômitos persistentes acompanham a dor na maioria dos casos. Febre, abdome distendido e sensível ao toque e aceleração dos batimentos completam o quadro típico.

Um detalhe ajuda a diferenciar de outras dores abdominais: o paciente com pancreatite aguda costuma buscar alívio inclinado para a frente, posição que reduz a pressão sobre o pâncreas. Deitar de costas geralmente piora a dor.
Pancreatite aguda é grave?
Depende da forma que a doença assume, e essa resposta tem números bem definidos. A classificação internacional de Atlanta divide a pancreatite aguda em leve, moderada e grave, conforme a presença de falência de órgãos e complicações.
A boa notícia vem da estatística: cerca de 80% dos casos são leves, com recuperação completa em poucos dias de internação. Os 20% restantes desenvolvem formas moderadas ou graves, que exigem cuidados intensivos, conforme os critérios revisados de Atlanta.
A gravidade não pode ser prevista pela intensidade da dor. Quadros dolorosos podem ser leves e quadros de dor moderada podem evoluir mal, e é por isso que toda suspeita de pancreatite aguda deve ser avaliada no hospital, sem exceção.
Principais causas da pancreatite aguda
Duas causas dominam as estatísticas e juntas respondem pela grande maioria dos casos:
● Cálculos biliares: pedras da vesícula migram e obstruem o canal que drena o pâncreas, represando as enzimas. É a principal causa, mais comum em mulheres
● Consumo de álcool: o excesso agudo ou crônico agride diretamente as células pancreáticas, causa mais frequente em homens
● Triglicerídeos muito elevados: níveis acima de 1.000 mg/dL podem desencadear a crise
● Medicamentos e procedimentos: algumas drogas e a colangiopancreatografia endoscópica têm risco conhecido
● Causas raras: infecções, traumas e alterações genéticas
Como a pedra na vesícula lidera o ranking, prevenir a pancreatite aguda muitas vezes significa tratar a vesícula a tempo. Entenda os sinais da pedra na vesícula e quando operar.
Como o diagnóstico é confirmado
O diagnóstico da pancreatite aguda combina três elementos: a dor abdominal característica, a elevação das enzimas pancreáticas no sangue e os achados de imagem.
O exame de sangue é o pilar central. A lipase elevada acima de três vezes o valor normal, no contexto da dor típica, praticamente confirma o diagnóstico. A amilase complementa a avaliação.
Os exames de imagem definem a causa e a gravidade. O ultrassom procura cálculos na vesícula, e a tomografia avalia a extensão da inflamação quando o quadro não evolui bem nas primeiras 48 a 72 horas.
Nos casos sem causa aparente, a investigação continua após a alta, com pesquisa ativa da microlitíase biliar, os cálculos minúsculos que escapam do ultrassom comum e que respondem por parte das pancreatites ditas "sem causa".
Pancreatite aguda: tratamento durante a internação
Não existe remédio que desligue a inflamação do pâncreas. O tratamento da pancreatite aguda se apoia em três pilares que dão ao órgão as condições de se recuperar: hidratação venosa vigorosa, controle da dor e realimentação progressiva.
A Cleveland Clinic destaca que a hidratação intensa nas primeiras 24 a 48 horas é a medida que mais influencia a evolução, prevenindo as complicações da fase inicial.
A realimentação começa assim que a dor permite, de preferência precocemente. Nos casos leves, o paciente recebe alta em poucos dias. Nos graves, a internação se estende, podendo incluir UTI, suporte nutricional e procedimentos para tratar complicações como coleções e necrose.

Quando a cirurgia entra no tratamento
Na pancreatite aguda de causa biliar, a cirurgia não trata o pâncreas, trata a origem do problema. A retirada da vesícula biliar é indicada para impedir novas crises, e o momento ideal é na mesma internação, nos casos leves, antes da alta hospitalar.
A colecistectomia é realizada por videolaparoscopia, com pequenas incisões e recuperação rápida. Adiar a cirurgia expõe o paciente a um risco real de recorrência da pancreatite nas semanas seguintes.
Quando há cálculo obstruindo o canal biliar, a colangiopancreatografia endoscópica pode ser necessária antes, para desobstruir a via. Nos raros casos com necrose infectada, procedimentos de drenagem e limpeza são indicados em momento planejado, preferindo as técnicas minimamente invasivas.
Tratamento da pancreatite aguda com o Dr. Fernando Bray
O Dr. Fernando Bray é gastrocirurgião e coloproctologista em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista. Atua em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

Como gastrocirurgião, o Dr. Bray atua exatamente na interface que a pancreatite aguda exige: a avaliação da causa, a decisão do momento cirúrgico e a realização da colecistectomia por videolaparoscopia para eliminar a origem biliar das crises.
Após a alta, o acompanhamento continua com a investigação das causas não identificadas e a orientação para prevenir recorrências, incluindo o cuidado com os fatores metabólicos.
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Conclusão
A pancreatite aguda é o tipo de doença que não dá segunda chance ao descaso. A dor típica, intensa e irradiada para as costas, é o corpo pedindo atendimento imediato, e a rapidez na chegada ao hospital muda o curso da doença.
A outra metade da história acontece depois da crise: tratar a causa, quase sempre a vesícula, é o que impede o retorno da pancreatite. Quem já teve uma crise não deve conviver com uma vesícula doente.
Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para entender melhor as doenças do aparelho digestivo.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Perguntas frequentes sobre pancreatite aguda
Pancreatite aguda mata?
Pode, nas formas graves, que representam a minoria dos casos. Cerca de 80% dos episódios são leves e evoluem bem com o tratamento hospitalar. O risco aumenta com a demora no atendimento, a falência de órgãos e a necrose infectada, por isso a avaliação imediata é decisiva.
Quantos dias fica internado quem tem pancreatite aguda?
Nos casos leves, a internação costuma durar poucos dias, até o controle da dor e a realimentação completa. Formas moderadas e graves exigem semanas, podendo incluir UTI. O tempo depende da evolução individual e da causa identificada.
Quem teve pancreatite aguda precisa operar a vesícula?
Quando a causa é biliar, sim. A retirada da vesícula é a única forma de impedir novas crises, e o momento preferido é na mesma internação, nos quadros leves. Manter a vesícula com cálculos após uma pancreatite é um risco desnecessário.
O que não pode comer depois de uma pancreatite aguda?
Na recuperação, a orientação é uma dieta com pouca gordura, sem álcool e com refeições fracionadas. A evolução da dieta é individualizada e definida pelo médico conforme a recuperação do pâncreas e a causa da crise.
Referências
MSD Manuals. Pancreatite aguda. Manual MSD, versão para a família, 2024. https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-digestivos/pancreatite/pancreatite-aguda
Pancreatite aguda sem etiologia aparente: a microlitíase deve ser pesquisada? Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. https://www.scielo.br/j/rcbc/a/yNNsjxhHjM7GRZChtjTBCnN/
Cleveland Clinic. Pancreatitis: Symptoms, Causes & Treatment. Cleveland Clinic, 2024. https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/8103-pancreatitis