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VAAFT, a cirurgia que trata a fístula anal por dentro e preserva a continência

Doenças do Ânus14 de out. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
VAAFT, a cirurgia que trata a fístula anal por dentro e preserva a continência

Quem convive com uma fístula anal complexa costuma ouvir duas notícias difíceis de digerir. A primeira é que o tratamento mais eficaz envolve cortar músculo. A segunda é que esse corte traz risco de incontinência.

O VAAFT nasceu para mudar essa equação. A sigla vem do inglês e significa tratamento vídeo-assistido da fístula anal, uma técnica que entra pelo próprio trajeto da fístula com uma microcâmera e o trata por dentro, sem cortar o esfíncter.

Neste artigo, você vai entender como o VAAFT funciona, para quais fístulas ele é indicado, o que os estudos mostram e onde a técnica se encaixa entre as opções de tratamento.

O que é o VAAFT?

É uma cirurgia minimamente invasiva feita com o fistuloscópio, um instrumento fino e rígido equipado com câmera, luz e canais de trabalho, desenhado para navegar dentro do trajeto da fístula.

A técnica foi descrita em 2011 pelos cirurgiões italianos Meinero e Mori, como procedimento poupador de esfíncter para as fístulas anais complexas, e desde então se espalhou pelos serviços de referência do mundo.

O diferencial está no ponto de vista. Pela primeira vez, o cirurgião passou a enxergar a fístula por dentro, em vez de estimar o caminho dela por fora.

Por que a fístula complexa é o grande desafio?

A fístula anal é um túnel que liga o interior do canal anal à pele. Nos casos simples, abrir esse túnel resolve. Nos complexos, o trajeto atravessa uma porção grande da musculatura da continência.

É aí que mora o dilema. Abrir o trajeto significa cortar músculo esfincteriano, e o preço pode ser a perda do controle das fezes e dos gases. Por isso existem as técnicas poupadoras de esfíncter.

Para piorar, as fístulas complexas costumam ter ramificações e recessos escondidos, que perpetuam a infecção quando não são encontrados. Entenda a doença no artigo sobre o tratamento da fístula anal.

Como a cirurgia funciona na prática?

A cirurgia tem duas etapas que acontecem no mesmo ato. Na fase diagnóstica, o fistuloscópio entra pelo orifício externo, na pele, e percorre o trajeto sob visão direta, com um soro especial distendendo o túnel.

Nessa navegação, o cirurgião mapeia ramificações e recessos e localiza o orifício interno, a origem da fístula no canal anal, que é o ponto mais importante do tratamento.

Na fase terapêutica, o trajeto é cauterizado por dentro, os resíduos são removidos com instrumentos delicados e o orifício interno é fechado, com sutura, retalho ou grampeamento, conforme o caso.

VAAFT, a cirurgia que trata a fístula anal por dentro e preserva a continência

As vantagens de enxergar por dentro

A visão direta do trajeto muda o patamar do tratamento em quatro frentes:

  1. Diagnóstico e tratamento no mesmo ato, com o mapa da fístula construído durante a própria cirurgia
  2. Ramificações e recessos localizados e tratados sob visão, em vez de passarem despercebidos
  3. Esfíncter preservado, porque nada é cortado no canal anal, o que protege a continência
  4. Recuperação mais leve, com menos dor, sem ferida aberta extensa e retorno rápido à rotina

Como toda tecnologia, essas vantagens vêm com contrapartidas. O VAAFT tem custo maior, exige equipamento específico e depende da experiência do cirurgião com a plataforma.

Os resultados do VAAFT nos estudos científicos

A técnica já soma mais de uma década de literatura. Meta-análise recente reuniu os estudos disponíveis e trouxe números que resumem bem o método.

A revisão encontrou identificação do orifício interno em 98% dos casos, com apenas 1% de complicações, confirmando a segurança e o poder diagnóstico da navegação por vídeo.

A recidiva ponderada ficou em 24%, um número que precisa de contexto. A técnica é usada justamente nas fístulas mais difíceis da especialidade, nas quais qualquer técnica poupadora enfrenta taxas de retorno relevantes, e a falha não queima etapas, outras opções seguem possíveis.

Quando o VAAFT é indicado?

A técnica brilha nas fístulas complexas, as que atravessam grande parte do esfíncter, têm múltiplos trajetos ou já passaram por cirurgias sem sucesso.

Ela também ganha força quando o risco de incontinência é maior, como nas fístulas anteriores em mulheres, em quem já tem algum grau de fraqueza esfincteriana e nos casos com histórico de radioterapia.

Nas fístulas superficiais e simples, a cirurgia convencional segue sendo a escolha racional, com ótimos resultados e custo menor. A tecnologia certa é a que o caso pede, não a mais nova.

Limites da técnica e combinações possíveis

A ciência pede leitura honesta. Os estudos da técnica variam muito entre si, com populações e definições de fístula complexa diferentes, o que dificulta comparações diretas.

As diretrizes da sociedade americana de cirurgia colorretal listam o método entre as opções para a fístula anal dentro de um leque de técnicas poupadoras, cada uma com seu lugar.

Na prática, o método também funciona como plataforma. A navegação por vídeo pode ser combinada com retalhos, com o fechamento por grampeamento e até com a fibra de laser aplicada por dentro do trajeto, unindo o mapa da câmera à energia que sela o túnel.

VAAFT, a cirurgia que trata a fístula anal por dentro e preserva a continência

Tratamento da fístula anal com o Dr. Fernando Bray

O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista e atuação em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

VAAFT, a cirurgia que trata a fístula anal por dentro e preserva a continência

No tratamento da fístula anal, o Dr. Bray prioriza a preservação do esfíncter e da continência. Ele solicita a ressonância e o ultrassom endorretal para mapear o trajeto, avalia a complexidade de cada caso e indica a técnica com melhor equilíbrio entre cura e segurança.

Entre as opções poupadoras, ele realiza o tratamento da fístula com laser, e mantém formação continuada em pós-graduação nas tecnologias da proctologia, incluindo as técnicas vídeo-assistidas como o VAAFT. Saiba mais no artigo sobre o laser para fístula anal.

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Conclusão

O VAAFT trouxe para o tratamento da fístula anal algo que faltava, a possibilidade de enxergar o inimigo por dentro antes de tratá-lo, tudo no mesmo procedimento e sem cortar o músculo da continência.

Ele não é a resposta para toda fístula, e sim uma peça valiosa de um quebra-cabeça que inclui laser, retalhos e as técnicas clássicas. Com avaliação bem feita e cirurgião experiente, cada caso encontra a sua peça.

Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para mais conteúdos sobre o tratamento das fístulas anais.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes sobre o VAAFT

O VAAFT dói?

A dor pós-operatória costuma ser baixa, porque não há corte nem ferida aberta extensa no canal anal. O desconforto é controlado com analgesia simples e o retorno às atividades tende a ser rápido, conforme orientação médica.

Qual é a taxa de sucesso do VAAFT?

Depende da complexidade da fístula. A meta-análise mais recente encontrou recidiva ponderada de 24%, lembrando que a técnica é aplicada justamente nos casos mais difíceis. A experiência do cirurgião e o fechamento adequado do orifício interno pesam no resultado.

O VAAFT pode causar incontinência?

O risco é mínimo, e essa é a principal vantagem da técnica. Como o esfíncter não é cortado, a continência fica protegida, algo especialmente importante em mulheres com fístula anterior e em quem já tem alguma fraqueza muscular.

Se o VAAFT falhar, ainda dá para tratar a fístula?

Sim. Como a técnica não destrói tecido nem corta músculo, todas as outras opções continuam na mesa, do laser aos retalhos e às técnicas clássicas. A falha atrasa a cura, mas não fecha portas.

Referências

Meinero P, Mori L. Video-assisted anal fistula treatment (VAAFT): a novel sphincter-saving procedure for treating complex anal fistulas. Techniques in Coloproctology, 2011. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22002535/

Wang C, Huang T, Wang X. Efficacy and safety of video-assisted anal fistula treatment in anorectal fistula: a meta-analysis. Minerva Gastroenterology, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38197847/

Gaertner WB, Burgess PL, Davids JS, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Anorectal Abscess, Fistula-in-Ano, and Rectovaginal Fistula. Diseases of the Colon and Rectum, 2022. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35732009/

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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