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Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

Doenças do Intestino3 de set. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

O tumor carcinoide é uma neoplasia que se desenvolve a partir de células neuroendócrinas, presentes em praticamente todo o corpo, mas com maior concentração no trato gastrointestinal e nos pulmões. Essas células produzem hormônios e substâncias que regulam diversas funções do organismo.

Embora seja considerado um tumor de crescimento lento na maioria dos casos, o diagnóstico costuma gerar muitas perguntas.

Em parte, isso acontece porque o próprio nome "carcinoide" vem sendo substituído na medicina atual pelo termo "tumor neuroendócrino", o que pode confundir quem pesquisa sobre o assunto. Fique tranquilo: entender como essa doença funciona ajuda a tomar decisões mais seguras sobre acompanhamento e tratamento.

Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

O que é o tumor carcinoide?

O tumor carcinoide é, na nomenclatura atual, um tumor neuroendócrino bem diferenciado. Isso significa que, ao microscópio, suas células ainda se parecem com as células normais de origem e tendem a crescer de forma mais lenta do que os tumores pouco diferenciados.

A classificação da Organização Mundial da Saúde, atualizada em 2019, unificou a terminologia e divide os tumores neuroendócrinos em três graus conforme o índice Ki-67: grau 1 (abaixo de 3%), grau 2 (de 3% a 20%) e grau 3 (acima de 20%). Quanto mais baixo o grau, mais favorável tende a ser o comportamento da doença.

Para compreender melhor os conceitos gerais sobre tumores, leia o artigo sobre o que é um câncer.

Onde o tumor carcinoide aparece com mais frequência?

No trato gastrointestinal, os locais mais acometidos são o intestino delgado, o apêndice cecal e o reto. No intestino delgado, especialmente no íleo terminal, concentra-se a maior parcela dos casos. No apêndice, o achado é frequentemente incidental, descoberto após uma apendicectomia de rotina.

Dados americanos mostram que a incidência dos tumores neuroendócrinos aumentou de forma expressiva nas últimas décadas, passando de cerca de 1 caso por 100 mil habitantes em 1973 para quase 7 por 100 mil em 2012. Parte desse aumento se deve à maior disponibilidade de exames como a colonoscopia e a endoscopia digestiva alta.

No Brasil, o maior levantamento publicado identificou mais de 15 mil casos registrados em centros de alta complexidade, com predomínio nas regiões Sudeste e Sul.

Sintomas do tumor carcinoide gastrointestinal

A maioria dos tumores carcinoides do trato digestivo é assintomática nas fases iniciais. Muitos são descobertos ao acaso durante uma colonoscopia de rastreamento, principalmente quando localizados no reto, ou durante cirurgias como a apendicectomia.

Quando há sintomas, eles dependem do tamanho e da localização. Tumores do intestino delgado podem causar dor abdominal, obstrução ou sangramento. Lesões retais costumam ser pequenas e assintomáticas, detectadas como nódulos submucosos durante o exame endoscópico.

Para saber mais sobre pólipos e lesões encontradas na colonoscopia, veja o artigo sobre pólipos intestinais.

Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

O que é a síndrome carcinoide?

A síndrome carcinoide é um conjunto de sintomas causados pela liberação de substâncias vasoativas, principalmente a serotonina, diretamente na circulação sanguínea. Ela ocorre em cerca de 19% dos pacientes com tumores neuroendócrinos, segundo dados de um estudo populacional com mais de 9.500 pessoas.

Os sintomas clássicos incluem:

  1. Rubor facial súbito, com vermelhidão no rosto e pescoço
  2. Diarreia aquosa e frequente
  3. Chiado no peito ou falta de ar
  4. Palpitações

Essa síndrome é mais frequente quando há metástases no fígado, pois nessa situação a serotonina produzida pelo tumor escapa da inativação hepática e alcança a circulação sistêmica.

Em tumores sem metástases hepáticas, o fígado consegue metabolizar a serotonina antes que ela cause sintomas.

Cardiopatia carcinoide e o risco para o coração

A exposição prolongada do coração à serotonina em excesso pode causar a chamada cardiopatia carcinoide, uma condição em que as válvulas do lado direito do coração sofrem fibrose e espessamento. As válvulas tricúspide e pulmonar são as mais atingidas.

Isso acontece porque a serotonina chega ao coração direito pela corrente venosa, vinda das metástases hepáticas. Nos pulmões, ela é normalmente degradada, o que protege o lado esquerdo do coração na maioria dos casos.

O acompanhamento com ecocardiograma periódico é recomendado para todos os pacientes que apresentam a síndrome, permitindo detectar alterações valvares antes que evoluam para insuficiência cardíaca.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação combina exames laboratoriais e de imagem. No sangue, a cromogranina A é o marcador mais utilizado, embora possa se elevar em outras situações, como uso de medicamentos inibidores de bomba de prótons.

Na urina de 24 horas, o ácido 5-hidroxindolacético (5-HIAA) avalia a produção de serotonina pelo tumor, com sensibilidade em torno de 70% e especificidade próxima de 90%.

Entre os exames de imagem, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética avaliam a extensão da doença. O PET-CT com gálio-68 DOTATATE é o método mais sensível para localizar tumores neuroendócrinos que expressam receptores de somatostatina, com sensibilidade superior a 90%.

A colonoscopia e a endoscopia digestiva alta permitem identificar e biopsiar lesões localizadas no estômago, intestino grosso ou reto. A biópsia com análise imunohistoquímica é indispensável para confirmar a origem neuroendócrina e determinar o grau do tumor.

Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

Tratamento cirúrgico do tumor carcinoide

A cirurgia é o tratamento de escolha para tumores localizados. A extensão da operação depende do tamanho, da localização e do envolvimento de estruturas vizinhas.

No apêndice, tumores menores que 2 cm geralmente são tratados apenas com a apendicectomia. Quando maiores que 2 cm ou com envolvimento da base do apêndice, pode ser necessária uma cirurgia mais ampla, como a hemicolectomia direita.

No reto, lesões pequenas, menores que 1 cm e restritas à submucosa, podem ser removidas por via endoscópica ou por ressecção transanal. Tumores maiores exigem cirurgia convencional ou videolaparoscópica, com planejamento individualizado.

No intestino delgado, a ressecção do segmento acometido com linfadenectomia é o procedimento padrão, pois esses tumores apresentam maior tendência à disseminação para linfonodos regionais.

Saiba mais sobre o papel da colonoscopia no planejamento cirúrgico neste artigo.

Opções de tratamento para doença avançada

Quando o tumor não pode ser completamente removido por cirurgia, ou quando há metástases, o tratamento visa controlar os sintomas e retardar a progressão. As principais opções incluem:

  1. Análogos da somatostatina, como octreotida e lanreotida, que controlam a secreção hormonal e demonstraram efeito antiproliferativo em estudos de fase III
  2. Terapia com radionuclídeo, conhecida como PRRT, que utiliza o lutécio-177 ligado a um análogo da somatostatina para irradiar seletivamente as células tumorais. O estudo NETTER-1 demonstrou resultados significativos em tumores de intestino médio em progressão
  3. Everolimo, um inibidor da via mTOR, indicado para tumores neuroendócrinos avançados de pulmão ou do trato gastrointestinal

A quimioterapia convencional tem papel limitado nos tumores bem diferenciados, sendo reservada principalmente para os carcinomas neuroendócrinos pouco diferenciados, que possuem comportamento mais agressivo.

Tumor carcinoide: entenda o que é esse tipo de tumor neuroendócrino

Tumor carcinoide no reto e no apêndice: quando procurar o Dr. Fernando Bray

Os tumores carcinoides localizados no reto e no apêndice cecal estão diretamente na área de atuação do coloproctologista. A avaliação especializada é importante para definir se o tratamento endoscópico é suficiente ou se há necessidade de cirurgia complementar.

No caso de achados incidentais durante a colonoscopia ou após apendicectomia, o acompanhamento com um profissional experiente permite classificar o risco, definir a conduta mais adequada e programar o seguimento a longo prazo.

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Conclusão

O tumor carcinoide gastrointestinal é uma doença com amplo espectro de comportamento, desde lesões pequenas e indolentes até formas capazes de causar sintomas significativos.

O diagnóstico correto, a classificação adequada e a escolha individualizada do tratamento são os pilares para bons resultados.

Se você recebeu esse diagnóstico ou teve um achado suspeito em exame endoscópico, converse com um especialista para definir a melhor conduta.

Continue explorando outros temas sobre saúde digestiva aqui no blog.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes sobre tumor carcinoide

Tumor carcinoide é câncer?

Sim. Embora muitos tumores carcinoides tenham crescimento lento e comportamento menos agressivo, eles são classificados como neoplasias malignas. O grau de agressividade depende principalmente do índice de proliferação celular (Ki-67) e da presença ou não de metástases.

Qual a diferença entre tumor carcinoide e tumor neuroendócrino?

Na prática, são a mesma entidade. O termo "carcinoide" é mais antigo e vem sendo gradualmente substituído por "tumor neuroendócrino bem diferenciado" na nomenclatura médica atual. A mudança reflete uma compreensão mais precisa da biologia desses tumores.

Tumor carcinoide no apêndice precisa de outra cirurgia depois da apendicectomia?

Depende do tamanho e das características do tumor. Lesões menores que 2 cm, completamente removidas na apendicectomia e sem fatores de risco adicionais, geralmente não necessitam de nova operação. Tumores maiores ou com invasão de estruturas adjacentes podem exigir cirurgia complementar.

A síndrome carcinoide acontece em todos os pacientes?

Não. A síndrome ocorre em cerca de 19% dos casos e está fortemente associada à presença de metástases hepáticas. Pacientes com doença localizada raramente desenvolvem os sintomas da síndrome.

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Referências

StatPearls. Carcinoid Syndrome. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK448096/

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Perfil epidemiológico dos tumores neuroendócrinos em adultos no Brasil. Archives of Endocrinology and Metabolism. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11081052/

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Nagtegaal et al. The 2019 WHO classification of tumours of the digestive system. Histopathology, 2020. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31433515/

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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