Quem precisa operar hemorroidas, fístula ou outra condição anorretal costuma fazer as mesmas perguntas. Vai doer muito? Quanto tempo até voltar à rotina? A cicatrização vai ser tranquila?
É para melhorar essas respostas que a proctologia vem incorporando novas fontes de energia. Depois dos lasers, chegou a vez da radiofrequência, uma tecnologia que corta e coagula com calor controlado e agride menos o tecido ao redor.
Neste artigo, você vai entender o que é essa tecnologia, como ela funciona no corpo, o que ela já trata na proctologia e o que a ciência mostrou até aqui, sem exageros de propaganda.
O que é a radiofrequência?
É uma forma de energia eletromagnética, da mesma família das ondas de rádio, aplicada ao corpo por um equipamento com ponteiras finas, o chamado bisturi de alta frequência.
O nome vem justamente da faixa de operação, com milhões de oscilações por segundo. Essa velocidade altíssima é o segredo da tecnologia, porque muda por completo a forma como o calor age no tecido.
Na prática, o cirurgião ganha uma ferramenta que corta, coagula e remodela tecidos com precisão fina, e o paciente ganha um procedimento com menos trauma na área tratada.
Como a energia age no corpo?
As células do corpo contêm íons, partículas com carga elétrica, como o sódio e o cloreto. Quando o campo eletromagnético oscila, esses íons vibram em resposta, milhões de vezes por segundo.
Essa vibração gera atrito, e o atrito gera calor dentro do próprio tecido, de forma rápida e localizada. É esse calor que corta, coagula ou estimula o colágeno, conforme a regulagem escolhida.
A diferença para outras fontes de calor está no controle. Como o aquecimento é veloz e pontual, o tecido vizinho fica exposto a temperaturas altas por muito menos tempo, e sofre menos.

A diferença para o bisturi elétrico comum
O eletrocautério tradicional, usado há décadas nos centros cirúrgicos, também corta com calor. O problema é que ele trabalha em frequências menores e esquenta o tecido de forma mais lenta e menos precisa.
O resultado é uma zona maior de queimadura ao redor do corte, a chamada lesão térmica lateral, que significa mais inflamação, mais dor e cicatrização mais demorada.
Na alta frequência, o corte é fino e a queimadura lateral é pequena. Estudos com a tecnologia na doença hemorroidária descrevem o papel da cirurgia por radiofrequência no tratamento das hemorroidas justamente pela eficiência do corte com menor dano térmico.
Radiofrequência e laser, rivais ou aliados?
As duas tecnologias buscam o mesmo objetivo, tratar com precisão e poupar o tecido saudável. A diferença está no perfil da lesão que cada energia produz.
O laser tende a agir em colunas mais profundas e estreitas, enquanto a nova energia produz um efeito mais superficial e distribuído, com remodelação do colágeno sem destruir a matriz do tecido.
Isso faz de cada energia a escolha certa para situações diferentes, e de peles mais escuras um terreno onde ela costuma se destacar, pelo menor risco de manchas. Para conhecer a outra metade dessa dupla, veja o que é a terapia com laser.
As aplicações da radiofrequência na proctologia
A tecnologia vem sendo estudada e aplicada em um leque crescente de condições anorretais:
- Doença hemorroidária, no corte e na coagulação durante a cirurgia, com menos dano térmico
- Fístula anal, com a ablação do trajeto preservando os músculos da continência
- Lesões anais por HPV, incluindo as lesões pré-malignas de alto grau
- Pele perianal e cicatrizes, com os modos fracionado e pulsado para remodelar o colágeno
Cada indicação está em um estágio diferente de evidência, e é isso que separa o uso responsável da promessa vazia. Os destaques merecem seções próprias.
Radiofrequência na fístula anal, o que o estudo mostrou
A fístula anal é um dos maiores desafios da proctologia, porque o tratamento mais eficaz, a fistulotomia, envolve risco de incontinência. Daí o interesse pelas técnicas que poupam o esfíncter.
Estudo prospectivo multicêntrico francês publicado na Colorectal Disease avaliou a ablação do trajeto por radiofrequência e encontrou cura clínica em 34,7% dos casos, sem nenhuma piora da continência, com dor pós-operatória pequena.
Entre os pacientes que cicatrizaram, a ressonância confirmou remissão profunda em 73,3% ao fim de um ano, e a energia aplicada se mostrou fator-chave do sucesso. É uma opção em construção, com a grande vantagem de não queimar as pontes para outros tratamentos. Conheça o panorama completo no artigo sobre o tratamento da fístula anal.

Radiofrequência nas lesões anais por HPV
As lesões de alto grau causadas pelo HPV no canal anal costumam voltar depois da cauterização dirigida, porque o vírus habita um território maior do que a lesão visível.
Essa energia permitiu uma estratégia nova, a ablação circunferencial, que trata toda a circunferência do canal com controle térmico. Ensaio prospectivo publicado na Diseases of the Colon and Rectum mostrou eficácia superior no longo prazo em comparação à ablação dirigida.
Como a energia agride menos o tecido, essa abordagem ampla se torna viável com menor risco de estreitamento do canal anal. Entenda a doença de base no artigo sobre HPV anal, verrugas anais e condiloma.
Do corte ao cuidado com a pele, os modos de aplicação
O mesmo aparelho trabalha de formas diferentes. No modo contínuo, a energia funciona como bisturi de precisão para cortar e coagular durante a cirurgia.
No modo pulsado, a energia chega em disparos com pausas para o tecido resfriar, ideal para áreas sensíveis e para melhorar cicatrizes espessas, como as que ficam após a cirurgia de cisto pilonidal.
No modo fracionado, micropontos de energia estimulam colágeno novo e vasos novos na pele perianal, preservando ilhas de tecido intacto entre eles para uma recuperação rápida.
Os limites que a honestidade científica impõe
Nem tudo está pronto. Para a fissura anal, ainda não há estudos publicados com a tecnologia, e o uso se apoia apenas na semelhança com os mecanismos do laser, o que exige cautela.
Na incontinência fecal, a técnica chegou a ser usada, mas as diretrizes atuais não a recomendam, porque os resultados se mostraram inconsistentes ao longo do tempo.
O quadro geral é de uma tecnologia promissora, com bases físicas sólidas e estudos iniciais encorajadores, que ainda aguarda ensaios randomizados maiores para definir seu lugar exato em cada indicação.
Quem não deve fazer procedimentos com radiofrequência
A radiofrequência é segura para a grande maioria das pessoas, mas alguns cenários pedem cautela. Por se tratar de uma corrente elétrica, quem tem marca-passo ou prótese metálica na região a ser tratada precisa de avaliação criteriosa antes de qualquer indicação.
A gestação também entra na lista de espera, assim como as infecções ativas na área, como herpes e dermatites, que precisam ser tratadas primeiro.
O paciente não precisa memorizar essa lista. A triagem é papel da consulta, onde o médico revisa o histórico e confirma se o procedimento é seguro para o seu caso.
Tecnologia e precisão com o Dr. Fernando Bray
O Dr. Fernando Bray é gastrocirurgião e coloproctologista em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista e atuação em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

A tecnologia é marca da prática do Dr. Bray, que opera com laser de diodo, laser de CO2, minilaparoscopia e cirurgia robótica e mantém formação continuada em pós-graduação nas novas energias da proctologia, incluindo a radiofrequência.
Mais importante que a ferramenta é a indicação certa. Na consulta, ele avalia cada caso e explica com transparência qual tecnologia oferece o melhor resultado para aquela condição, com a evidência científica como guia.
Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray
Conclusão
A radiofrequência chega à proctologia como as boas tecnologias chegam, resolvendo um problema real. Calor controlado, corte fino e menos dano ao redor significam recuperações mais tranquilas.
O futuro dirá o tamanho exato do seu papel, e os estudos em andamento vão desenhar esses contornos. Por enquanto, ela já ocupa um lugar digno no arsenal de quem trata hemorroidas, fístulas e lesões por HPV com visão moderna.
Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para mais conteúdos sobre as tecnologias da proctologia.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Perguntas frequentes sobre radiofrequência na proctologia
O procedimento com radiofrequência dói?
Os procedimentos são feitos com anestesia adequada a cada caso, e a dor pós-operatória tende a ser menor que a das técnicas com eletrocautério comum, porque a queimadura ao redor do corte é menor. O desconforto varia conforme a condição tratada.
Radiofrequência é melhor que laser?
Nenhuma das duas vence em tudo. Cada energia tem um perfil de ação, e a escolha depende da condição, da profundidade desejada e das características do paciente. Em muitos serviços, as duas tecnologias convivem e se complementam.
A radiofrequência cura a fístula anal?
Ela é uma das opções que preservam o esfíncter, com cura clínica em cerca de um terço dos casos no primeiro estudo prospectivo e nenhuma piora da continência. Quando não resolve, outras técnicas seguem disponíveis, sem prejuízo para o tratamento.
Esse tratamento é o mesmo da estética?
A base física é a mesma, o calor controlado gerado pela energia eletromagnética. O que muda são os equipamentos, as ponteiras, as regulagens e a finalidade, que na proctologia vai do corte cirúrgico ao tratamento de fístulas e lesões por HPV.
Referências
Sautereau M, Bouchard D, Brochard C, et al. Prospective and multicentre study of radiofrequency treatment in anal fistula. Colorectal Disease, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36128714/
Goldstone SE, Terlizzi JP, Levine RA, et al. A Prospective, Dual-Center Trial of Circumferential Radiofrequency Ablation of Anal High-Grade Squamous Intraepithelial Lesions. Diseases of the Colon and Rectum, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35522783/
Filingeri V, Bellini MI, Gravante G. The role of radiofrequency surgery in the treatment of hemorrhoidal disease. European Review for Medical and Pharmacological Sciences, 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22696885/