Quase todo mundo conhece o papanicolau do colo do útero, um dos maiores sucessos da prevenção do câncer na história da medicina. O que pouca gente sabe é que existe uma versão do exame para o canal anal.
O papanicolau anal segue a mesma lógica, coletar células para flagrar alterações causadas pelo HPV antes que elas virem câncer. E, para os grupos de maior risco, ele pode fazer toda a diferença.
Neste artigo, você vai entender como o exame funciona, quem precisa fazer, o que acontece quando o resultado vem alterado e por que a ciência confirmou que rastrear salva.
O que é o papanicolau anal?
Também chamado de citologia anal, o papanicolau anal é um exame de rastreamento. Uma escova macia coleta células da parede do canal, que seguem para análise no laboratório.
O objetivo é identificar alterações celulares causadas pelo HPV, as chamadas displasias, que podem evoluir para o câncer ao longo dos anos se não forem tratadas.
A grande vantagem é o tempo. Entre a alteração inicial e um tumor existe uma janela longa, e o exame permite agir dentro dela, quando o tratamento é simples e feito em consultório.
A ligação entre o HPV e o câncer de ânus
O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo, e a maioria das pessoas sexualmente ativas entra em contato com o vírus em algum momento da vida.
O corpo costuma resolver a infecção por conta própria, com o sistema imune eliminando o vírus em um a dois anos. O problema está nas infecções persistentes pelos tipos de alto risco, porque o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos aponta que mais de 90% dos cânceres de ânus são causados pelo HPV.
É essa relação direta que torna o rastreamento tão eficiente. Diferentemente de outros tumores, o câncer anal tem causa conhecida, lesão precursora conhecida e exame capaz de flagrá-la a tempo.
Conheça a doença no artigo sobre o câncer anal e tudo o que você precisa saber.
Quem precisa fazer o rastreamento?
O papanicolau anal não é um exame para a população geral. As diretrizes internacionais de 2024 da Sociedade Internacional de Neoplasia Anal definiram os grupos que se beneficiam do rastreamento, priorizando quem tem risco realmente aumentado:
- Pessoas vivendo com HIV, em especial homens que fazem sexo com homens, o grupo de maior incidência
- Homens que fazem sexo com homens mesmo sem HIV, pelo risco acima da população geral
- Mulheres com histórico de câncer ou lesões de alto grau no colo do útero, na vagina ou na vulva
- Pessoas imunossuprimidas, como transplantadas de órgãos ou em tratamentos que reduzem a imunidade
Fora desses grupos, a avaliação é individual. Quem tem verrugas anais de repetição ou outras manifestações do HPV também merece conversa sobre o tema na consulta proctológica.
Como o exame é feito?
A coleta é rápida e simples. Uma escova fina é introduzida poucos centímetros no canal anal e girada com delicadeza, recolhendo células de toda a circunferência. O desconforto é mínimo e passageiro.
O preparo pede apenas dois cuidados nas 24 horas anteriores, evitar relações anais receptivas e não fazer lavagens ou duchas retais, porque os dois removem as células que o exame precisa capturar.
O ideal é que a coleta venha acompanhada do exame proctológico completo, com inspeção e toque retal, que aproveita a consulta para procurar lesões palpáveis.

O que acontece se o resultado vier alterado?
Resultado alterado não significa câncer, significa investigar. O passo seguinte é a anoscopia de alta resolução, um exame que enxerga o canal anal com lentes de aumento e corantes especiais.
Esses corantes destacam as áreas suspeitas, que são biopsiadas na hora. É a biópsia que define se a lesão é de baixo ou de alto grau, e é esse grau que orienta a conduta.
As lesões de baixo grau costumam ser acompanhadas, porque muitas regridem sozinhas. As de alto grau são tratadas, em geral com cauterização dirigida em consultório, interrompendo o caminho até o câncer.
O estudo que provou que rastrear e tratar salva
Durante anos, faltava a prova definitiva de que tratar as lesões precursoras evitava o câncer anal. Ela veio com o estudo ANCHOR, publicado no New England Journal of Medicine.
A pesquisa acompanhou mais de 4 mil pessoas vivendo com HIV com lesões de alto grau, divididas entre tratamento e observação. O grupo tratado teve progressão para o câncer significativamente menor.
O resultado mudou as diretrizes mundiais e deu ao papanicolau anal o mesmo status que o exame do colo do útero conquistou décadas atrás, o de ferramenta comprovada de prevenção.

A vacina contra o HPV, a outra metade da prevenção
O rastreamento flagra o problema cedo, mas a vacina evita que ele comece. O Ministério da Saúde afirma que vacinar-se contra o HPV é a medida mais eficaz de prevenção da infecção.
A vacina está disponível gratuitamente no SUS para crianças e adolescentes e para grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como pessoas imunossuprimidas, dentro das faixas etárias recomendadas.
Na rede privada, existe ainda a versão nonavalente, que amplia a cobertura de tipos do vírus. Para adultos fora das faixas do SUS, a indicação é individual e vale a conversa com o médico.
Verruga anal também merece atenção
As verrugas genitais e anais, os condilomas, são causadas por tipos de HPV diferentes dos que provocam câncer. Ainda assim, elas indicam contato com o vírus e pedem tratamento e acompanhamento.
Quem já tratou condiloma entra no radar de atenção, porque pode carregar também os tipos de alto risco. Entenda as manifestações do vírus no artigo sobre HPV anal, verrugas anais e condiloma.
Avaliação e rastreamento com o Dr. Fernando Bray
O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista e atuação em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

No consultório, o Dr. Bray avalia o risco individual de cada paciente e organiza o rastreamento adequado, com o exame proctológico completo e os exames certos para cada perfil, incluindo o papanicolau anal e a anoscopia quando indicados.
O atendimento é livre de julgamentos e pautado pela ciência, do acompanhamento das lesões pelo HPV ao tratamento em consultório, com as tecnologias que o caso pedir.
Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray
Conclusão
O câncer de ânus é um dos poucos tumores com prevenção de ponta a ponta, vacina para evitar o vírus, papanicolau anal para flagrar as lesões e tratamento simples para interrompê-las.
Se você faz parte de um grupo de risco, essa informação vale mais que qualquer receio. Uma coleta de minutos, repetida no intervalo certo, conforme orientação médica, é o que separa o susto da tranquilidade.
Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para mais conteúdos sobre prevenção e saúde anorretal.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Perguntas frequentes sobre o papanicolau anal
O papanicolau anal dói?
Não costuma doer. A escova de coleta é fina e flexível, entra poucos centímetros no canal anal e o procedimento dura menos de um minuto. A maioria das pessoas descreve apenas um leve desconforto passageiro.
De quanto em quanto tempo devo repetir o exame?
Depende do grupo de risco e do resultado anterior. Com exames normais, o intervalo costuma ficar entre um e dois anos nos grupos de maior risco, sempre definido pelo médico conforme o perfil de cada paciente.
Homens também fazem papanicolau anal?
Sim. O exame independe do sexo, e homens que fazem sexo com homens, em especial os que vivem com HIV, formam justamente o grupo com maior indicação de rastreamento pelas diretrizes internacionais.
Quem tomou a vacina do HPV ainda precisa do exame?
Precisa, se estiver nos grupos de risco. A vacina protege contra os principais tipos do vírus, mas não cobre todos e não trata infecções já existentes. Vacina e rastreamento se somam, um não substitui o outro.
Referências
Palefsky JM, Lee JY, Jay N, et al. Treatment of Anal High-Grade Squamous Intraepithelial Lesions to Prevent Anal Cancer. New England Journal of Medicine, 2022. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35704479/
Stier EA, Clarke MA, Deshmukh AA, et al. International Anal Neoplasia Society's consensus guidelines for anal cancer screening. International Journal of Cancer, 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38297406/
National Cancer Institute. HPV and Cancer. NCI, 2024. https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/risk/infectious-agents/hpv-and-cancer
Ministério da Saúde. HPV. Governo Federal, 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hpv