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Papanicolau anal, o exame simples que pode prevenir o câncer de ânus

Doenças do Ânus13 de out. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray
Papanicolau anal, o exame simples que pode prevenir o câncer de ânus

Quase todo mundo conhece o papanicolau do colo do útero, um dos maiores sucessos da prevenção do câncer na história da medicina. O que pouca gente sabe é que existe uma versão do exame para o canal anal.

O papanicolau anal segue a mesma lógica, coletar células para flagrar alterações causadas pelo HPV antes que elas virem câncer. E, para os grupos de maior risco, ele pode fazer toda a diferença.

Neste artigo, você vai entender como o exame funciona, quem precisa fazer, o que acontece quando o resultado vem alterado e por que a ciência confirmou que rastrear salva.

O que é o papanicolau anal?

Também chamado de citologia anal, o papanicolau anal é um exame de rastreamento. Uma escova macia coleta células da parede do canal, que seguem para análise no laboratório.

O objetivo é identificar alterações celulares causadas pelo HPV, as chamadas displasias, que podem evoluir para o câncer ao longo dos anos se não forem tratadas.

A grande vantagem é o tempo. Entre a alteração inicial e um tumor existe uma janela longa, e o exame permite agir dentro dela, quando o tratamento é simples e feito em consultório.

A ligação entre o HPV e o câncer de ânus

O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo, e a maioria das pessoas sexualmente ativas entra em contato com o vírus em algum momento da vida.

O corpo costuma resolver a infecção por conta própria, com o sistema imune eliminando o vírus em um a dois anos. O problema está nas infecções persistentes pelos tipos de alto risco, porque o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos aponta que mais de 90% dos cânceres de ânus são causados pelo HPV.

É essa relação direta que torna o rastreamento tão eficiente. Diferentemente de outros tumores, o câncer anal tem causa conhecida, lesão precursora conhecida e exame capaz de flagrá-la a tempo.

Conheça a doença no artigo sobre o câncer anal e tudo o que você precisa saber.

Quem precisa fazer o rastreamento?

O papanicolau anal não é um exame para a população geral. As diretrizes internacionais de 2024 da Sociedade Internacional de Neoplasia Anal definiram os grupos que se beneficiam do rastreamento, priorizando quem tem risco realmente aumentado:

  1. Pessoas vivendo com HIV, em especial homens que fazem sexo com homens, o grupo de maior incidência
  2. Homens que fazem sexo com homens mesmo sem HIV, pelo risco acima da população geral
  3. Mulheres com histórico de câncer ou lesões de alto grau no colo do útero, na vagina ou na vulva
  4. Pessoas imunossuprimidas, como transplantadas de órgãos ou em tratamentos que reduzem a imunidade

Fora desses grupos, a avaliação é individual. Quem tem verrugas anais de repetição ou outras manifestações do HPV também merece conversa sobre o tema na consulta proctológica.

Como o exame é feito?

A coleta é rápida e simples. Uma escova fina é introduzida poucos centímetros no canal anal e girada com delicadeza, recolhendo células de toda a circunferência. O desconforto é mínimo e passageiro.

O preparo pede apenas dois cuidados nas 24 horas anteriores, evitar relações anais receptivas e não fazer lavagens ou duchas retais, porque os dois removem as células que o exame precisa capturar.

O ideal é que a coleta venha acompanhada do exame proctológico completo, com inspeção e toque retal, que aproveita a consulta para procurar lesões palpáveis.

Papanicolau anal, o exame simples que pode prevenir o câncer de ânus

O que acontece se o resultado vier alterado?

Resultado alterado não significa câncer, significa investigar. O passo seguinte é a anoscopia de alta resolução, um exame que enxerga o canal anal com lentes de aumento e corantes especiais.

Esses corantes destacam as áreas suspeitas, que são biopsiadas na hora. É a biópsia que define se a lesão é de baixo ou de alto grau, e é esse grau que orienta a conduta.

As lesões de baixo grau costumam ser acompanhadas, porque muitas regridem sozinhas. As de alto grau são tratadas, em geral com cauterização dirigida em consultório, interrompendo o caminho até o câncer.

O estudo que provou que rastrear e tratar salva

Durante anos, faltava a prova definitiva de que tratar as lesões precursoras evitava o câncer anal. Ela veio com o estudo ANCHOR, publicado no New England Journal of Medicine.

A pesquisa acompanhou mais de 4 mil pessoas vivendo com HIV com lesões de alto grau, divididas entre tratamento e observação. O grupo tratado teve progressão para o câncer significativamente menor.

O resultado mudou as diretrizes mundiais e deu ao papanicolau anal o mesmo status que o exame do colo do útero conquistou décadas atrás, o de ferramenta comprovada de prevenção.

Papanicolau anal, o exame simples que pode prevenir o câncer de ânus

A vacina contra o HPV, a outra metade da prevenção

O rastreamento flagra o problema cedo, mas a vacina evita que ele comece. O Ministério da Saúde afirma que vacinar-se contra o HPV é a medida mais eficaz de prevenção da infecção.

A vacina está disponível gratuitamente no SUS para crianças e adolescentes e para grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como pessoas imunossuprimidas, dentro das faixas etárias recomendadas.

Na rede privada, existe ainda a versão nonavalente, que amplia a cobertura de tipos do vírus. Para adultos fora das faixas do SUS, a indicação é individual e vale a conversa com o médico.

Verruga anal também merece atenção

As verrugas genitais e anais, os condilomas, são causadas por tipos de HPV diferentes dos que provocam câncer. Ainda assim, elas indicam contato com o vírus e pedem tratamento e acompanhamento.

Quem já tratou condiloma entra no radar de atenção, porque pode carregar também os tipos de alto risco. Entenda as manifestações do vírus no artigo sobre HPV anal, verrugas anais e condiloma.

Avaliação e rastreamento com o Dr. Fernando Bray

O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista e atuação em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

Papanicolau anal, o exame simples que pode prevenir o câncer de ânus

No consultório, o Dr. Bray avalia o risco individual de cada paciente e organiza o rastreamento adequado, com o exame proctológico completo e os exames certos para cada perfil, incluindo o papanicolau anal e a anoscopia quando indicados.

O atendimento é livre de julgamentos e pautado pela ciência, do acompanhamento das lesões pelo HPV ao tratamento em consultório, com as tecnologias que o caso pedir.

Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray

Conclusão

O câncer de ânus é um dos poucos tumores com prevenção de ponta a ponta, vacina para evitar o vírus, papanicolau anal para flagrar as lesões e tratamento simples para interrompê-las.

Se você faz parte de um grupo de risco, essa informação vale mais que qualquer receio. Uma coleta de minutos, repetida no intervalo certo, conforme orientação médica, é o que separa o susto da tranquilidade.

Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para mais conteúdos sobre prevenção e saúde anorretal.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes sobre o papanicolau anal

O papanicolau anal dói?

Não costuma doer. A escova de coleta é fina e flexível, entra poucos centímetros no canal anal e o procedimento dura menos de um minuto. A maioria das pessoas descreve apenas um leve desconforto passageiro.

De quanto em quanto tempo devo repetir o exame?

Depende do grupo de risco e do resultado anterior. Com exames normais, o intervalo costuma ficar entre um e dois anos nos grupos de maior risco, sempre definido pelo médico conforme o perfil de cada paciente.

Homens também fazem papanicolau anal?

Sim. O exame independe do sexo, e homens que fazem sexo com homens, em especial os que vivem com HIV, formam justamente o grupo com maior indicação de rastreamento pelas diretrizes internacionais.

Quem tomou a vacina do HPV ainda precisa do exame?

Precisa, se estiver nos grupos de risco. A vacina protege contra os principais tipos do vírus, mas não cobre todos e não trata infecções já existentes. Vacina e rastreamento se somam, um não substitui o outro.

Referências

Palefsky JM, Lee JY, Jay N, et al. Treatment of Anal High-Grade Squamous Intraepithelial Lesions to Prevent Anal Cancer. New England Journal of Medicine, 2022. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35704479/

Stier EA, Clarke MA, Deshmukh AA, et al. International Anal Neoplasia Society's consensus guidelines for anal cancer screening. International Journal of Cancer, 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38297406/

National Cancer Institute. HPV and Cancer. NCI, 2024. https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/risk/infectious-agents/hpv-and-cancer

Ministério da Saúde. HPV. Governo Federal, 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hpv

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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