Inchaço constante, gases, alteração do intestino e cansaço sem explicação. Quando esses sintomas se acumulam, muitos pacientes chegam ao consultório com a mesma dúvida: existe um exame de disbiose capaz de confirmar o problema?
A resposta é mais interessante do que um simples sim ou não. Não há um teste único e definitivo, mas existe um conjunto de exames que, combinados com a avaliação clínica, permitem identificar o desequilíbrio da microbiota com segurança.
Neste artigo, você vai entender quais exames investigam a disbiose, como cada um funciona, quando eles são indicados e o que fazer com os resultados.
O que é a disbiose e por que ela precisa ser investigada?
A disbiose é o desequilíbrio da microbiota intestinal, o conjunto de trilhões de bactérias, fungos e vírus que vivem no trato digestivo. Quando as espécies protetoras diminuem e as prejudiciais ganham espaço, funções como digestão, imunidade e produção de vitaminas ficam comprometidas.
A Cleveland Clinic destaca que a disbiose pode se manifestar com sintomas digestivos e extraintestinais, como fadiga, alterações de pele e queda de imunidade, o que torna a investigação estruturada ainda mais importante.
O problema é que esses sintomas se sobrepõem a várias outras condições, como intolerâncias alimentares e síndrome do intestino irritável. Por isso, investigar corretamente evita meses de tratamentos por tentativa e erro.

Existe um exame de disbiose específico?
Não existe um exame de disbiose único, padronizado e aceito mundialmente como critério diagnóstico isolado. O diagnóstico é construído pela combinação entre o quadro clínico e exames complementares.
Revisão publicada em periódico da National Library of Medicine sobre biomarcadores fecais reforça que a análise da microbiota tem potencial diagnóstico crescente, mas ainda não substitui a avaliação clínica na definição de condutas.
Na prática, isso significa que o médico usa os exames para responder três perguntas: há inflamação no intestino? A digestão e a absorção estão preservadas? A composição da flora está alterada? Cada teste responde a uma parte dessa investigação.
Principais exames usados na investigação da disbiose
O exame de disbiose, na prática clínica, é um conjunto de testes complementares. Os mais utilizados são:
- Calprotectina fecal: mede a inflamação intestinal e ajuda a diferenciar a disbiose de doenças inflamatórias como Crohn e retocolite
- Coprológico funcional: avalia a digestão pela presença de gordura, amido e fibras mal digeridas nas fezes
- Mapeamento do microbioma: sequenciamento genético que identifica e quantifica as espécies de bactérias presentes no intestino
- Teste respiratório de hidrogênio: investiga o supercrescimento bacteriano no intestino delgado, uma forma específica de desequilíbrio
- Pesquisa de fungos nas fezes: identifica o crescimento excessivo de leveduras como a Candida
- Teste respiratório de hidrogênio e metano: mede os gases produzidos pelas bactérias e pelos microrganismos metanogênicos após a ingestão de um substrato, investigando o supercrescimento no intestino delgado e o excesso de metano associado à constipação
O consenso norte-americano sobre testes respiratórios padronizou a medição conjunta do hidrogênio e do metano no ar exalado, já que o metano elevado identifica o supercrescimento de metanogênicos, um padrão de desequilíbrio ligado à constipação que o teste de hidrogênio sozinho não detecta.
Estudo publicado na Scientific Reports demonstrou que níveis elevados de calprotectina fecal se associam a menor diversidade bacteriana e à redução de espécies produtoras de butirato, conectando o marcador inflamatório ao desequilíbrio da flora.
Nenhum desses exames fecha o diagnóstico sozinho. É o conjunto, interpretado por um especialista, que revela o quadro completo.
Mapeamento do microbioma intestinal e como ele funciona
O mapeamento do microbioma é o exame de disbiose mais moderno disponível. A partir de uma amostra de fezes, o laboratório sequencia o material genético das bactérias e gera um relatório com as espécies presentes e suas proporções.
Publicação do laboratório Sabin explica que o sequenciamento permite avaliar a diversidade da microbiota e a proporção entre grupos bacterianos, dados que orientam intervenções alimentares e suplementação direcionada.

O ponto de atenção é que o resultado precisa de interpretação criteriosa. Ainda não existem valores de referência universais para definir o que é uma microbiota "normal", já que a composição varia entre pessoas saudáveis.
Quando o exame de disbiose é indicado?
A investigação se justifica quando os sintomas digestivos persistem sem explicação após a avaliação inicial. Inchaço recorrente, gases excessivos, diarreia ou constipação alternadas e desconforto que piora após as refeições são os principais motivadores.
Fora do intestino, sinais como candidíase de repetição, fadiga persistente, alterações de pele e infecções frequentes também levantam a suspeita de desequilíbrio da flora.
O exame de disbiose também pode ser útil após tratamentos prolongados com antibióticos, quando a microbiota sofre um impacto direto e os sintomas surgem na sequência.
Antes de solicitar qualquer teste, o médico precisa descartar condições que imitam a disbiose. Veja como a síndrome do intestino irritável se manifesta e como é tratada.
Disbiose intestinal e candidíase: qual a relação?
A conexão entre disbiose intestinal e candidíase é um dos motivos mais frequentes de investigação, principalmente em mulheres com episódios de repetição.
A Candida é um fungo que habita naturalmente o intestino em pequenas quantidades. Quando as bactérias protetoras diminuem, o fungo encontra espaço para se multiplicar. Estudo publicado na Microorganisms demonstrou que o desequilíbrio bacteriano do cólon favorece diretamente o supercrescimento de Candida albicans, especialmente em cenários de inflamação intestinal.
Na prática, isso explica por que tratar apenas a candidíase, sem cuidar do intestino, costuma gerar recaídas. A investigação da disbiose intestinal e candidíase em conjunto permite tratar a causa, e não apenas o episódio agudo.

Dieta para disbiose intestinal: o papel da alimentação no tratamento
Identificado o desequilíbrio, a dieta para disbiose intestinal é a base do tratamento. O objetivo é retirar o que alimenta as espécies prejudiciais e fornecer o que nutre as protetoras.
Isso significa reduzir açúcares refinados, ultraprocessados e álcool, e aumentar fibras prebióticas presentes em alho, cebola, aveia, banana verde e leguminosas. Alimentos fermentados como iogurte natural e kefir complementam a estratégia.
A Organização Mundial de Gastroenterologia orienta que a suplementação com probióticos deve considerar cepa, dose e duração específicas para cada objetivo clínico, o que reforça a necessidade de orientação profissional.
Para entender melhor essa parte do tratamento, leia mais sobre a diferença entre probióticos e prebióticos e como usá-los corretamente.
A dieta para disbiose intestinal não é um cardápio fixo. Ela é ajustada conforme os achados dos exames, os sintomas e a resposta do paciente ao longo das semanas.
Investigação da disbiose com o Dr. Fernando Bray
O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista. Atua em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.

Na investigação da disbiose, o Dr. Bray conduz uma avaliação clínica completa antes de solicitar exames, evitando testes desnecessários e direcionando a investigação para o que cada caso realmente exige.
Quando os sintomas indicam condições associadas que precisam de avaliação endoscópica, como doenças inflamatórias intestinais, o Dr. Bray realiza os procedimentos e acompanha o paciente em todas as etapas, do exame de disbiose ao plano de tratamento.
Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray
Conclusão
O exame de disbiose não é um teste único, mas uma investigação estruturada que combina avaliação clínica, marcadores de inflamação, análise funcional das fezes e, quando indicado, o mapeamento do microbioma.
Mais importante do que o exame em si é a interpretação. Resultados isolados, sem contexto clínico, levam a tratamentos desnecessários. Com o acompanhamento certo, a disbiose é uma condição identificável e reversível.
Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para se aprofundar em saúde intestinal e digestiva.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Perguntas frequentes sobre exame de disbiose
Qual exame detecta a disbiose intestinal?
Não existe um teste único. A investigação combina calprotectina fecal, coprológico funcional, mapeamento do microbioma, teste respiratório de hidrogênio e metano e, em casos específicos, pesquisa de fungos. O médico define quais exames fazem sentido para cada quadro.
O exame de disbiose é feito pelo plano de saúde?
Depende do teste. Exames como calprotectina fecal e coprológico costumam ter cobertura. O mapeamento do microbioma por sequenciamento genético geralmente é particular, pois ainda não integra o rol de cobertura obrigatória. Vale confirmar com o seu plano.
Preciso de preparo para o exame de disbiose?
Na maioria dos testes de fezes, o preparo envolve evitar antibióticos, probióticos e laxantes nos dias anteriores à coleta, conforme orientação do laboratório. O médico informa as instruções específicas de cada exame no momento da solicitação.
O resultado do exame muda o tratamento?
Sim. Os achados direcionam a estratégia: inflamação elevada pede investigação adicional, sinais de má digestão orientam ajustes alimentares e o perfil da microbiota ajuda a escolher probióticos e a montar a dieta para disbiose intestinal de forma personalizada.
Referências
Cleveland Clinic. Dysbiosis: What It Is, Symptoms, Causes, Treatment & Diet. Cleveland Clinic, 2024. https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/dysbiosis
Translating Gut Microbiota into Diagnostics: A Multidimensional Approach for the Diagnosis of Inflammatory Bowel Disease. PMC, National Library of Medicine, 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12989658/
Rezaie A et al. Hydrogen and Methane-Based Breath Testing in Gastrointestinal Disorders: The North American Consensus. American Journal of Gastroenterology, 2017. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28323273/
Elevated fecal calprotectin is associated with gut microbial dysbiosis, altered serum markers and clinical outcomes in older individuals. Scientific Reports, 2024. https://www.nature.com/articles/s41598-024-63893-0
Grupo Sabin. Atualizações sobre o microbioma intestinal. Blog Sabin, 2024. https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-sobre-o-microbioma-intestinal/
Panpetch W et al. How Gut Bacterial Dysbiosis Can Promote Candida albicans Overgrowth during Colonic Inflammation. Microorganisms, 2022. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9147621/
World Gastroenterology Organisation. Probiotics and Prebiotics: Global Guidelines. WGO, 2023. https://www.worldgastroenterology.org/guidelines/probiotics-and-prebiotics