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Constipação intestinal: o que causa, como tratar e quando procurar um especialista

Doenças do Ânus20 de ago. de 20265 min de leituraPor Dr. Fernando Bray

Você sente que o intestino não funciona como deveria. Os dias passam e a evacuação simplesmente não acontece, ou acontece com muito esforço.

Você não está sozinho nessa situação, a constipação intestinal é um dos problemas digestivos mais comuns e afeta pessoas de todas as idades. Uma revisão sistemática com 68 estudos populacionais mostrou que esse problema atinge cerca de 16% da população adulta mundial.

Neste artigo, você vai entender o que está por trás da constipação intestinal, quais são os sinais que merecem atenção, como é feito o tratamento e em que momento vale procurar um coloproctologista.

O que é constipação intestinal?

A constipação intestinal, também conhecida como intestino preso ou prisão de ventre, é a dificuldade persistente para evacuar.

Ela pode se manifestar como evacuações pouco frequentes, fezes endurecidas, esforço excessivo ou sensação de que o intestino não esvaziou por completo.

Pelos critérios de Roma IV, referência internacional para o diagnóstico, a constipação intestinal crônica é definida quando pelo menos dois dos sintomas descritos acima estão presentes por mais de três meses, com início há pelo menos seis meses.

Evacuar menos de três vezes por semana é um dos indicadores mais conhecidos, mas não é o único.

Constipação intestinal: o que causa, como tratar e quando procurar um especialista

Causas da constipação intestinal

A constipação intestinal raramente tem uma causa isolada. Na maioria das vezes, ela resulta de uma combinação de fatores que afetam o funcionamento do intestino.

  1. Baixa ingestão de fibras: frutas, verduras, legumes e grãos integrais fornecem as fibras que dão volume às fezes e facilitam o trânsito intestinal
  2. Pouca hidratação: a água é essencial para manter as fezes macias. Quando o corpo recebe pouco líquido, o intestino absorve mais água das fezes, deixando-as ressecadas
  3. Sedentarismo: a atividade física regular estimula os movimentos naturais do intestino, conhecidos como peristaltismo
  4. Uso de certos medicamentos: antidepressivos, suplementos de ferro, anti-hipertensivos e analgésicos opioides podem reduzir a motilidade intestinal
  5. Disfunções do assoalho pélvico: dificuldades na coordenação da musculatura envolvida na evacuação podem impedir a saída adequada das fezes

Doenças e condições que provocam constipação

A constipação intestinal também pode ser sintoma de doenças sistêmicas. O hipotireoidismo reduz a motilidade do trato digestivo por conta da queda nos hormônios tireoidianos.

O diabetes mellitus, quando compromete os nervos que controlam o intestino (neuropatia autonômica), pode causar lentidão no trânsito colônico. A hipercalcemia, frequentemente associada a distúrbios da paratireoide, também diminui as contrações intestinais.

Doenças neurodegenerativas merecem atenção especial. A constipação intestinal é um dos sintomas mais precoces da doença de Parkinson, podendo anteceder os sintomas motores em anos.

A esclerose múltipla, por comprometer as vias nervosas que controlam o intestino, também causa constipação em parte significativa dos pacientes. Por isso, quando a constipação surge sem causa aparente, investigar condições sistêmicas faz parte da avaliação completa

Outra causa importante é a síndrome de evacuação obstruída, em que o paciente sente vontade de evacuar mas não consegue esvaziar o reto adequadamente.

Ela pode ser provocada por alterações anatômicas como retocele (herniação da parede retal), intussuscepção retal (invaginação do reto sobre si mesmo) ou por dissinergia do assoalho pélvico.

Essa síndrome é investigada com a defecoressonância e a manometria anorretal e tem tratamento específico, que pode incluir biofeedback ou, em casos selecionados, correção cirúrgica.

Constipação intestinal: o que causa, como tratar e quando procurar um especialista

Sintomas que vão além da dificuldade de evacuar

Muitas pessoas associam a constipação intestinal apenas à falta de idas ao banheiro. Na realidade, os sintomas podem ser mais amplos e afetar o dia a dia de formas diferentes.

Além da redução na frequência das evacuações, é comum sentir inchaço abdominal, desconforto na região da barriga, sensação de que o intestino não esvaziou por completo, necessidade de fazer força excessiva e fezes em formato de bolinhas ou muito endurecidas.

Quando esses sintomas se prolongam por semanas ou meses, a constipação passa a ser considerada crônica.

Dados da literatura médica indicam que em pessoas acima de 60 anos, a prevalência chega a 33,5%, e que mulheres são mais afetadas do que homens, numa proporção de 1,5 para 1.

Constipação intestinal e qualidade de vida

A constipação intestinal crônica vai além de um incômodo passageiro. Ela pode afetar a disposição, o humor e até a vida social.

Pessoas que convivem com o problema relatam desconforto constante, insegurança em compromissos fora de casa e dificuldade para manter uma alimentação equilibrada.

Estudos indicam que a constipação crônica reduz de forma significativa a qualidade de vida tanto física quanto mental.

Além do impacto emocional, a constipação prolongada pode favorecer o surgimento de outras condições, como hemorroidas e fissuras anais, causadas pelo esforço repetido na evacuação. Leia mais sobre como as hemorroidas se desenvolvem.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com uma conversa detalhada sobre os sintomas, hábitos alimentares, uso de medicamentos e histórico de saúde. O coloproctologista avalia há quanto tempo o problema existe e quais sintomas estão presentes.

Em alguns casos, exames complementares são solicitados para entender melhor o funcionamento do intestino.

A colonoscopia é indicada quando há sinais de alerta, como sangramento retal, perda de peso ou início recente dos sintomas após os 45 anos.

O exame permite descartar causas orgânicas como pólipos, tumores ou processos inflamatórios. Saiba mais sobre o preparo e o que esperar desse exame em nosso conteúdo.

O enema opaco (radiografia com contraste) também pode ser utilizado para avaliar a anatomia do cólon e identificar alterações estruturais como megacólon, estenoses ou lesões obstrutivas.

Para avaliar a velocidade do trânsito intestinal, o médico pode solicitar o estudo do tempo de trânsito colônico. Nesse exame, o paciente ingere cápsulas com marcadores radiopacos e, após cinco dias, uma radiografia do abdômen mostra onde os marcadores se acumularam.

Quando a maioria permanece espalhada por todo o cólon, isso sugere uma condição chamada inércia colônica. Quando se concentram na região do reto, a suspeita recai sobre um distúrbio de evacuação

A defecoressonância (ressonância magnética da defecação) avalia em tempo real o funcionamento dos músculos do assoalho pélvico e das estruturas do reto durante o esforço de evacuação. Ela é especialmente útil para identificar condições como retocele, intussuscepção retal e prolapso, que compõem a síndrome de evacuação obstruída

A manometria anorretal mede a pressão e a coordenação dos músculos do esfíncter e do assoalho pélvico. Esse exame identifica se há dissinergia, ou seja, uma incoordenação entre a força de empurrar e o relaxamento dos músculos que deveriam se abrir durante a evacuação.

Tratamento da constipação intestinal

O tratamento da constipação intestinal segue uma abordagem progressiva, começando pelas medidas mais simples e avançando conforme a necessidade de cada paciente.

O primeiro passo é ajustar a alimentação e a hidratação. O aumento no consumo de fibras solúveis tem o melhor resultado entre as medidas iniciais, com um número necessário para tratar de apenas 2, segundo uma meta-análise publicada na literatura médica. Isso significa que a cada dois pacientes tratados com fibras, um apresenta melhora significativa.

Quando as mudanças na alimentação não são suficientes, o médico pode indicar laxativos osmóticos como o polietilenoglicol (PEG) ou a lactulose. O PEG apresenta taxa de sucesso de 52% comparada a 11% com placebo. A dose é ajustada até que as fezes fiquem macias, sem se tornarem líquidas.

Se os laxativos osmóticos não bastarem, o próximo nível são os laxativos estimulantes como o bisacodil e a sena. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, essas medicações são seguras mesmo para uso prolongado, quando acompanhadas por um médico

Para pacientes que não respondem aos laxativos convencionais, existem os medicamentos secretagogos, como a linaclotida, a lubiprostona e a prucaloprida. Essas substâncias estimulam a secreção de fluidos no intestino ou aceleram o trânsito colônico por mecanismos diferentes dos laxativos tradicionais.

Constipação intestinal: o que causa, como tratar e quando procurar um especialista

Quando o tratamento clínico não resolve?

Nos casos em que a causa é uma disfunção do assoalho pélvico, a terapia de biofeedback é a opção mais eficaz, com melhora clínica de longo prazo em até 70% dos pacientes. Essa técnica ensina o paciente a coordenar corretamente os músculos envolvidos na evacuação, sem necessidade de cirurgia.

Quando todas as etapas de tratamento clínico são esgotadas e o estudo do tempo de trânsito colônico confirma lentidão grave do intestino, o quadro pode ser classificado como inércia colônica. Nessa condição, o cólon apresenta motilidade extremamente reduzida, sem resposta adequada aos estímulos naturais ou medicamentosos

Para esses pacientes, a colectomia subtotal com anastomose ileorretal pode ser indicada. Estudos mostram uma taxa média de satisfação de 86% entre os pacientes operados. Porém, é fundamental que qualquer disfunção do assoalho pélvico seja tratada antes da indicação cirúrgica, pois a cirurgia não corrige problemas de evacuação.

Mudanças no estilo de vida que ajudam o intestino

Além do tratamento específico, algumas mudanças no dia a dia fazem diferença real no funcionamento do intestino.

Incluir alimentos ricos em fibras nas refeições é o ponto de partida. Frutas como mamão, ameixa e laranja com bagaço, além de verduras, legumes e grãos integrais, favorecem o trânsito intestinal. Beber pelo menos 2 litros de água por dia é essencial para que as fibras cumpram seu papel.

A atividade física regular também estimula os movimentos naturais do intestino. Não é preciso um treino intenso: caminhadas diárias de 30 minutos já trazem benefícios. Outro hábito importante é respeitar a vontade de evacuar e não adiar as idas ao banheiro, pois isso ajuda o intestino a manter sua regularidade.

Constipação intestinal: o que causa, como tratar e quando procurar um especialista

Quando procurar um coloproctologista?

Se a constipação intestinal persistir por mais de três semanas, mesmo com ajustes na alimentação e nos hábitos, é hora de procurar um coloproctologista.

A avaliação profissional é ainda mais importante quando o problema vem acompanhado de sangramento retal, perda de peso sem explicação, dor abdominal intensa ou alternância entre constipação e diarreia. Esses sinais podem indicar condições que merecem investigação mais aprofundada, como a síndrome do intestino irritável. Aprofunde o tema em nosso artigo.

Pessoas com mais de 45 anos que apresentam constipação de início recente também devem buscar avaliação para descartar causas orgânicas. A consulta traz clareza e permite montar um plano de tratamento personalizado.

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Se o intestino preso tem sido um problema constante na sua vida, saiba que existe tratamento. Cada caso tem suas particularidades, e um olhar profissional faz toda a diferença para encontrar a abordagem certa.

O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião, com consultório no Jardim Paulista, em São Paulo. Ele oferece uma avaliação cuidadosa e um plano de tratamento pensado para o seu caso, com técnicas modernas e uma escuta atenta.

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Conclusão

A constipação intestinal é mais do que um incômodo eventual. Quando se torna crônica, ela compromete a qualidade de vida, pode provocar outras condições e merece investigação adequada. A boa notícia é que, na grande maioria dos casos, o tratamento é eficaz e traz alívio real.

Não normalize o desconforto. Procurar um especialista é o caminho mais seguro para entender o que está acontecendo com o seu intestino e retomar o bem-estar.

Para mais conteúdos sobre saúde digestiva, continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray.

FAQ: perguntas frequentes sobre constipação intestinal

Quantas vezes por semana é normal evacuar?

A frequência considerada normal varia de três vezes por semana a três vezes por dia. Menos de três evacuações por semana, especialmente com esforço ou fezes endurecidas, pode indicar constipação intestinal.

Laxantes fazem mal se usados por muito tempo?

Depende do tipo. Laxantes osmóticos, como o polietilenoglicol, são considerados seguros para uso prolongado quando indicados por um médico. O uso excessivo de laxantes estimulantes por conta própria, sem acompanhamento, é que pode ser prejudicial.

A constipação intestinal pode causar hemorroidas?

Sim. O esforço repetido durante a evacuação é um dos fatores que favorecem o surgimento de hemorroidas e de fissuras anais. Tratar a constipação ajuda a prevenir essas condições.

Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.

Referências

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Bharucha AE, Lacy BE. Mechanisms, Evaluation, and Management of Chronic Constipation. Gastroenterology. 2020;158(5):1232-1249. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6829047/

Sharma A, Rao S. Management of Chronic Constipation: A Comprehensive Review. Cureus. 2025;17(1). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11781917/

Simren M, et al. Idiopathic Slow Transit Constipation: Pathophysiology, Diagnosis, and Management. J Neurogastroenterol Motil. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10819559/

Tomita T, et al. Evidence-Based Clinical Guidelines for Chronic Constipation 2023. J Gastroenterol. 2023. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11825134/

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Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 130.063 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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