Quando o médico diz que a cirurgia será a laser, parece tecnologia de ontem. A verdade é que essa luz levou mais de um século para chegar à sala ao lado.
A trajetória do laser na medicina começa numa equação teórica, passa por um rubi sintético e desemboca nas fibras ópticas que hoje tratam hemorroidas, fístulas e fissuras com mínima agressão.
Conhecer essa história ajuda a entender por que a tecnologia é confiável, o que mudou entre as gerações de aparelhos e por que a experiência de quem opera importa tanto quanto a máquina.
Tudo começou com uma ideia no papel
No início do século XX, Albert Einstein descreveu teoricamente a emissão estimulada de radiação, o fenômeno físico em que um fóton de luz induz um átomo excitado a liberar outro fóton idêntico.
Era pura teoria, sem nenhuma aplicação à vista. Mas estava ali, no papel, o princípio que décadas depois daria nome e funcionamento ao laser.
Entre a equação e a máquina, passaram-se mais de quarenta anos de física experimental, uma espera que explica a solidez do que veio depois.
A própria palavra é um acrônimo em inglês para amplificação da luz por emissão estimulada de radiação, termo cunhado pelo físico Gordon Gould em 1958, quando a corrida pela máquina já estava lançada.
1960, a luz sai do papel e vira máquina
A concretização veio pelas mãos de Theodore Maiman, que construiu o primeiro laser funcional da história usando um cristal de rubi, feito publicado na revista Nature em 1960.
O marco inaugurou a aplicação clínica da tecnologia. Pela primeira vez, a humanidade tinha uma luz coerente, colimada e monocromática, organizada o bastante para ser apontada com precisão a um alvo.
Nas décadas seguintes, a medicina correu para testar a novidade em praticamente todas as especialidades, da oftalmologia à dermatologia, como registra a revisão sobre o laser na cirurgia publicada no Journal of Lasers in Medical Sciences.

Os anos 1970 e o bisturi de luz na proctologia
O laser de dióxido de carbono chegou à proctologia na década de 1970, empregado como bisturi cirúrgico em procedimentos excisionais, com relatos clínicos do uso terapêutico nas doenças da região anorretal.
A ferramenta oferecia mais precisão e melhor controle do sangramento que a lâmina comum. Mas havia um porém que a história faria questão de corrigir.
Essas primeiras aplicações reproduziam a lógica da cirurgia convencional com uma ferramenta de energia. O resultado eram feridas extensas e dor pós-operatória significativa, a tecnologia nova fazendo cirurgia à moda antiga.
Foi uma fase necessária. A proctologia aprendia ali o comportamento da luz nos tecidos da região, acumulando a experiência que mais tarde permitiria usar a mesma energia de um jeito muito mais inteligente.
1983, o ano em que a lógica mudou
A virada conceitual veio com a teoria da fototermólise seletiva, publicada na Science em 1983 por Anderson e Parrish, dois pesquisadores da área de dermatologia.
A ideia é elegante, escolher um comprimento de onda que o alvo absorva preferencialmente, de modo que a energia destrua apenas o tecido doente, poupando tudo ao redor.
O laser deixava de ser força bruta e virava precisão programada. É esse princípio que sustenta até hoje cada disparo bem indicado nos consultórios.
A era das fibras ópticas e do minimamente invasivo
Nas décadas seguintes, outros sistemas entraram em cena, como o laser de neodímio-YAG no tratamento de condilomas anais. Mas a evolução mais significativa veio com a disseminação dos lasers de diodo.
Compatíveis com fibras ópticas flexíveis, eles permitiram entregar a energia diretamente ao tecido-alvo por pequenas incisões, criando técnicas verdadeiramente minimamente invasivas, de dentro para fora.
Para o paciente, a mudança se traduz em números simples do dia a dia, menos dor, menos curativo, menos tempo longe do trabalho e da rotina.
O conceito de bisturi a laser ficou no passado. O panorama dessa filosofia está no artigo sobre o que significa cirurgia minimamente invasiva.
O CO2 também se reinventou
Enquanto o diodo inaugurava as técnicas por dentro, o laser de CO2 de nova geração incorporou avanços na interação entre a luz e o tecido.
Ele passou a atuar não apenas como instrumento de corte, mas como modulador de respostas biológicas locais, influenciando processos inflamatórios e cicatriciais.
Com os scanners modernos, tornou-se possível realizar procedimentos como fissurectomias precisas com ablação controlada e mínima lesão térmica em profundidade, algo impensável nos anos 1970.
O presente, evidências e padronização
A adoção crescente das técnicas veio acompanhada de um corpo de evidências em expansão, com revisões sistemáticas e metanálises sustentando as aplicações nas hemorroidas, fístulas, fissuras e doença pilonidal.
Esforços internacionais passaram a usar consensos formais para padronizar indicações, parâmetros técnicos e cuidados, além do treinamento e da certificação dos cirurgiões.
Esse amadurecimento também mudou a conversa no consultório. Hoje o paciente pode perguntar pelos estudos, pelos protocolos e pela experiência da equipe, e um bom especialista tem respostas para as três perguntas.
O laser deixou de ser novidade para virar componente estruturado do arsenal da proctologia, desde que associado à indicação adequada e ao monitoramento dos resultados. Veja uma aplicação madura no artigo sobre o laser para hemorroidas.

O laser na medicina do Dr. Fernando Bray
O Dr. Fernando Bray é coloproctologista e gastrocirurgião em São Paulo, com consultório no Jardim Paulista e atuação em hospitais como Albert Einstein, Vila Nova Star, Santa Catarina e São Luiz Morumbi.
A prática dele resume o ponto de chegada dessa história, com laser de diodo, laser de CO2, radiofrequência e fotobiomodulação aplicados conforme a doença, o paciente e o objetivo de cada caso.

Mais de um século depois da teoria de Einstein, a luz organizada trata com menos dor e recuperação mais curta. Entenda a base da tecnologia no artigo sobre o que é a terapia com laser.
Agende sua consulta com o Dr. Fernando Bray
Conclusão
A história do laser na medicina é a história de uma ideia que amadureceu, da teoria à máquina, da força bruta à precisão seletiva, do corte amplo à fibra que trata por dentro.
Para quem vai se tratar, essa trajetória tem um recado prático, a tecnologia é madura, estudada e padronizada, e rende o melhor resultado nas mãos de quem domina suas indicações.
Continue acompanhando o blog do Dr. Fernando Bray para conhecer as aplicações do laser na medicina e decidir seu tratamento com contexto.
Esse texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica.
Perguntas frequentes sobre o laser na medicina
Quando o laser começou a ser usado na medicina?
O primeiro laser funcional foi construído em 1960, com um cristal de rubi, e a medicina adotou a tecnologia já nas décadas seguintes. Na proctologia, o laser de CO2 entrou como bisturi cirúrgico nos anos 1970.
O laser usado hoje é o mesmo dos anos 1970?
A física é a mesma, a lógica mudou por completo. Os primeiros aparelhos reproduziam cortes convencionais. Os atuais usam fibras ópticas, fototermólise seletiva e modos modernos de emissão para tratar com mínima agressão.
Cirurgia a laser é segura?
Sim, quando bem indicada e feita por equipe treinada em protocolos de segurança. As técnicas atuais são sustentadas por revisões sistemáticas e consensos internacionais que padronizam parâmetros e cuidados.
Todo tratamento é melhor com laser?
Não. O laser é uma ferramenta do arsenal, não uma bandeira. A efetividade depende da indicação adequada e da aplicação criteriosa, e há casos em que outras técnicas seguem sendo a melhor escolha.
Referências
Maiman TH. Stimulated Optical Radiation in Ruby. Nature, 1960. https://www.nature.com/articles/187493a0
Khalkhal E, Rezaei-Tavirani M, Zali MR, Akbari Z. The Evaluation of Laser Application in Surgery: A Review Article. Journal of Lasers in Medical Sciences, 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32021682/
Anderson RR, Parrish JA. Selective photothermolysis: precise microsurgery by selective absorption of pulsed radiation. Science, 1983. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6836297/