Resposta: Pode sim!

O refluxo pode causar os chamados sintomas atípicos (tabela 1). A literatura científica propõe 2 mecanismos para justificar esses sintomas

  • Primeira teoria: o refluxo sobe na forma de gotículas a partir do estômago, passa pelo esôfago e vai em direção das vias aéreas superiores (garganta, cordas vocais, nariz e seios nasais) e em alguns casos até os brônquios e pulmões. Esse contato do conteúdo gástrico com efeito corrosivo agride a mucosa das vias aéreas, causando inflamação que desencadeia o estímulo de tosse (figura 1).
  • Segunda teoria: existe um nervo que se chama vago, que inerva os brônquios e o esôfago, quando o refluxo com o conteúdo alimentar do estômago passa pelo esôfago causa um estímulo de irritação do nervo, que desencadeia um reflexo de espasmo tanto no esôfago quanto nos brônquios, podendo causar dor no peito e falta de ar, além da tosse seca.

No entanto, é preciso salientar que esses mecanismos propostos não se excluem, pode ser que que ocorram juntos e em alguns casos ao mesmo tempo! 

Infelizmente, é frequente que os pacientes apresentem longo período de sintomas sem diagnóstico, mesmo passando por vários especialistas, como otorrinolaringologista, pneumologista, clínico geral e até mesmo gastroenterologista. 

Geralmente, esse processo é crônico, ou seja, já é resultado de um longo processo que foi progressivamente piorando até que o paciente procure atendimento médico. 

Tabela 1. Sintomas atípicos do refluxo.

  • Dor no peito ou tórax
  • Disfonia – perda de voz
  • Apneia – falta de ar
  • Rouquidão
  • Dor de garganta e inflamação da garganta
  • Pigarro crônico
  • Tosse seca 
  • Globus – sensação de bola na garganta
  • Sinusite – inflamação dos seios nasais
  • Otite média recorrente (inflamação do ouvido)
  • Engasgo
  • Erosões dentárias
  • Asma
  • Fibrose pulmonar
  • Bronquite crônica

Figura 1. Manifestações extra-esofágicas.

O diagnóstico é feito pela anamnese avaliando quadro clínico e exame físico, associado aos exames complementares que podem ser realizados para avaliar os sintomas atípicos do refluxo: 

  • Nasofibroscopia: que avalia as fossas nasais, laringe e demais estruturas da via aérea superior em busca de sinais de inflamação causada pelo refluxo ácido do estômago.
  • Endoscopia Digestiva Alta –EDA: utilizada para visualizar todo o esôfago, estômago e duodeno, para identificar possíveis sinais de inflamação causa por refluxo ácido ou refluxo alcalino.
  • Phmetria esfofágica de 24h: monitorização prolongada do refluxo gastro-esofágico durante 24h, para avaliar o PH e o tempo de exposição ácida do esôfago, número e duração dos episódios de refluxo e se ocorre mais deitado ou sentado/em pé, além de permitir realizar a classificação de Demeester.
  • ImpedancioPhmetria: que realiza mesmas funções da Phmetria convencional, mas que também consegue avaliar se existe refluxo alcalino (PH básico) proveniente de refluxo do duodeno para o estômago, vale frisar que o conteúdo alcalino é ainda mais nocivo para a mucosa do esôfago, causando sintomas mais intensos.

O tratamento também é de longo prazo com medidas dietéticas (clique aqui para ver a dieta) e comportamentais, além do uso de medicamentos para controlar o refluxo e a inflamação, como inibidores da bomba de prótons, sucralfato e procinéticos. Em alguns casos, em que se configura refratariedade ao tratamento medicamentoso pode ser necessário a realização de tratamento cirúrgico com hiatoplastia e fundoplicatura via procedimento minimamente invasivo por cirurgia laparoscópica ou via cirurgia robótica.